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Mostrando postagens de março, 2020

A JANELA

Exórdio Quimérico Olhos fechados. Uma fenda no tempo, e então um quarto se espreguiça diante de seus olhos. Existem objetos espalhados ao redor de um escrínio bagunçado. Papéis e mais papéis... poesias, listas de compra, objetivos mensais, despesas... Na cama, havia alguém dormindo de forma extremamente confortável. Um homem, pareceu-lhe. Cabelos desgrenhados mergulhavam no travesseiro macio. O rosto não pôde ser visualizado, pois dormia de bruços. Tudo parecia muito sólido para um sonho rotineiro: as roupas empilhadas em uma cadeira, o sono profundo em que aquele suposto homem desconhecido se exilava. No baluarte da noite o brilho demonstrara-se cândido por aquela imediação, nisto, decidira procurar alguma caneta e escrever algo a respeito de seus sentimentos naqueles papéis bagunçados. Enquanto admirava a beleza encontrada pelo lado de fora da janela que jazia naquele dormitório estranho, escrevia, também, um aviso singelo de que estivera por ali e que gostaria muito de sabe...

MÃE

  Já tentei falar sobre meu dia, sobre meus pensamentos, sobre clichês cansativos e até mesmo sobre desistir da vida de escritora. Já apaguei tantas ideias, esboços, nuances de algo que poderia ficar bom (se eu tivesse lido daqui uma semana), que o motivo para não conseguir escrever está começando a tornar-se ininteligível. Isso é torturante. O tempo continua passando, minhas mãos pinicam meu cérebro e eu não entendo o motivo de não imaginar nada. Talvez um ano de muitas reviravoltas como este tenha uma certa falha de compreensão com as limitações humanas, e é nessas horas que o papel do escritor já passa a não fazer tanto sentido: quando a vida faz essas lacunas enormes e cheias de contratempos inimagináveis. Eu sei que ainda estamos desenvolvendo, não aprendemos tudo e a fase de ajuste é estressante e decepcionante muitas vezes. A experiência em dividir o mesmo teto é algo bem esquisito, porque muitas vezes as diferenças de criação se chocam como placas tectônicas e então geram...

AMOR PERDIDO

Onde estive? No amor em que queimei-me. Onde estive? Na dor da qual apossei-me e, Mesmo definhando, criei asas o jardim tornou-se casa. Por onde andei? Cresci no espinho latente, Nos disformes de tua dorsal, E então ladrilhei por pequenos vãos do teu corpo Um caminho que quis queimar, incendiar. Onde estivestes, ovelha perdida? Perguntas-me sem cessar. Olhando-te, digo: Onde estive o céu negro ou carmesim é assim, cruento e mordaz. A parte da qual pertenci, eras tu meu mestre, eras tu o meu amor. No desfecho em que encontrei-me vi tuas vestes negras, teus cabelos desgrenhados, tuas mãos frias e, Neste mesmo alumbramento, chorei diante de uma escada. Onde estive? No castiçal que cai da noite. Onde estive? No umbral que leva tua alma para mais perto. Perguntas-me se desci à sepultura,   Indagas-me se me engasguei nas lágrimas de meu relento. Imploras-me por alguma resposta, Mas por onde remanesci somente o perverso exist...

UM HOMEM APAIXONADO

Sublimíssimo amor, apraz-me pensar em como -mesmo quando tudo parece tão confuso entre o que achamos que devemos fazer e o que deve, verdadeiramente, ser posto em prática – os sentimentos são como roupas velhas que não conseguimos deixar de usar mesmo quando rasgam. Debaixo dessas pequenas nuances - pequenos vitrais quebrados que vamos colando vagarosamente - penso que somos duas almas antigas se vislumbrando enquanto apreciam o caminho das mãos até a xícara de café sobre a mesa. Constato que, tudo que não significa nada para você, também não me parece fazer sentido algum. As pessoas nos veem como tresvariados por tentarmos nos salvar do que elas chamam de verdade absoluta, e isso me deixa extremamente tranqüilo; é como diz um trecho de música “Aerials, so up high, when you lose small mind you free your life”. Ambicionar um amor sensato é insanidade? Pois que então sejamos insanos, pois eu jamais admitiria viver algo fora deste aparato. O mais curioso dentro dessas divagações é: pel...

DESNECESSÁRIO

Sim, escrever sobre o amor é desnecessário. Eu admito que perco tempo - hora, minuto, milésimo e segundo. O poeta perde amor. Perde o gosto de sofrer, porque o sofrimento fica naquele papel riscado. Papel que dói na cor. Papel que dói no sabor das letras - digeridas no ritual sagrado da leitura. Papel que chora cicatrizes conjugadas em linhas tortas que expressam tormenta. Você precisa entender que essa escolha não depende só de mim Depende dos meus problemas também Depende dessa minha vida, que não me dá nenhuma trégua E é por isso que eu não quero mais te ver Você consegue me esquecer? As lágrimas compassadas por emoções são tão profundas quanto os devaneios sob a varanda (de frente para um oceano do qual nem se sabe a total profundidade) Você vai me amar se eu te contar que meus detalhes são maiores do que você, ou eu, imaginamos? E se eu te disser que, qualquer dia desses, vou sentir saudades de algo indefinido? Sinto a sua respiração ao meu lado Necessito de m...

ETERNO EPÍLOGO DE ABSURDOS

Morei nos desatinos mais profundos, até que cansei das condutas impróprias e cheias de esfarrapo. Ao mirar minha própria face, percebi milhares de questões em aberto de total descabimento. Hoje me distancio por toda a eternidade dos múltiplos enlaces já efetuados, e encontro um caminho por onde o sol se esvai e, de modo concomitante, despede-se de mim para sempre.  São tão aleatórias as formas de se encontrar a dor que nem preocupo-me mais em relação aos fatores que regem a criatividade vital, afinal, já estou certa de haver sempre novidade nesses aspecto. Sob este mesmo mormaço estrelado que desvanece, dedilho as promessas mais auspiciosas e anseio por tudo aquilo que, de certo modo, mais temo. E, contraditoriamente eu, um eterno epílogo de absurdos, só receio uma coisa: a mim mesma. Defino-me "epílogo" porque sempre estou no fim de todas as minhas vivências; mesmo quando penso estar em seu princípio, a existência vem e me explica que, muitas vezes, as coisas são rasas mesm...

MORRO DO VENTO

"Olá, podemos nos encontrar sexta-feira à noite, que pensas?" - enviei a mensagem, já ansiosa pela resposta. Minha família ainda não sabia de nada a respeito, e aproveitaria que minha mãe ausentar-se-ia neste dia específico, só voltando na noite de domingo. Estávamos trocando mensagens com frequência, porém ainda não havíamos combinado nenhum encontro; ele era o segundo rapaz com o qual me envolvia no campo afetivo, e este seria o marco inicial de algo que eu jamais serei capaz de esquecer por completo. Depois de um relacionamento de tantos anos, meu único intento era viver algo totalmente diferente do meu passado. "Oi, o que acha de hoje às 20h?" - respondeu-me alguns minutos depois.  Ao ler, estremeci dos pés à cabeça. Se nos encontrássemos naquele mesmo dia, teria de contar à minha mãe a respeito. A parte preocupante era o fato de que só faltava 1h30min. para as 20h, será que ela entenderia? Permitiria? "Não há possibilidade alguma para amanhã?" ...

SINTO SAUDADES DE ESTAR MORTA

 Digo ao mundo que deixe a chuva lavar todas estas questões dolorosas e conspurcadas que me são imputadas diariamente, que perdoe meus erros - cometidos sob os milhares de fótons que se aglomeram e designam-se por "Sol". A única coisa que posso perceber é que ninguém poderia amar-me tanto quanto a Morte. Quando tudo acabar estarei em seus braços e direi, com os olhos fixados na eternidade, o quanto lhe aguardava ansiosamente.  O padecimento me encanta, e mal posso esperar para deparar-me com o fim. Infelizmente não consigo esquecer o sorriso encantador do amanhã inexistente. Do ontem que procrastina e de tudo que deveria ser sabido e não dispõe-se a ser encontrado. A face triste da Morte persegue-me, sei que também está sendo insuportável inexistir sem mim ao seu lado. Sempre fomos inseparáveis, a razão diária de nossas permanências - porque quando se está morto não há impermanências, somente a vida oferece estas sensações. Ontem decidi que não havia problema algum em conti...