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Mostrando postagens de fevereiro, 2020

ONTEM À NOITE

Não minta para mim, porque suas mãos irão prometer permanecer, porém seus olhos se desviarão dos meus. Não machuque meu coração com este punhal que substitui sua língua, pois enquanto tudo muda, as coisas continuam iguais e não há ninguém que não seja culpado por suas próprias malfeitorias. O maior desatino está neste achismo de que poderia amar-me e deixar-me ao mesmo tempo.  Não cogite a possibilidade de fugir do que está dentro, porque a eternidade queima em seu corpo. Não converse comigo - descreio em cada detalhe fonético seu. Às vezes desgraça é ação divina disfarçada e tudo o que poderia ter sido, na verdade, é tudo o que jamais deveria ser cogitado. Dizer-lhe que palavras corretas poderiam modificar a situação, ou que atitudes específicas teriam eficácia de alguma maneira, seria como indignificar minha própria existência. Nunca quis ser a melhor pessoa do planeta,  nem ter uma vida cinematográfica. No fim, o que restam são os cacos destes corações ...

CERTEZAS ININTELIGÍVEIS

Descobri, recentemente, que certos ósculos têm o poder de excluir-me da razão. Em dados momentos, os processos mentais perdem totalmente a linearidade. A proporção do desejo é indômita e o gosto do que sinto mora numa necessidade absurda pelo toque físico - o que é totalmente contraditório no contexto geral de minhas vivências usuais, pois sempre esquivo-me ao máximo disto. O impulso é evidenciado através da troca tresloucada de salivas enquanto corpos se esparramam pelo ambiente e nunca sentem-se próximos o suficiente. A volúpia é inerente ao momento, que, por mais incrível que possa parecer, vai muito além dos instintos carnais. Há devoção mútua de sentimentos.  Neste labirinto - o das memórias - não há muito espaço para pensar com congruência. É difícil admitir que, quando se trata deste quidam, transformo-me em uma criatura totalmente primitiva que possui um televisor na cabeça ao invés de um cérebro - e não tem o menor laivo a respeito de quem está usando o controle remoto (p...

CARTA A UM NARCÍSICO

Você está se afundando - procurando por qualquer retalho de si. Com os olhos abertos, tateando o chão como se fosse cego. Sozinho, decaindo. Fora de controle, com uma faca em suas mãos, implorando pela própria vida - vitimando-se da forma mais teatral possível. Se vê em múltiplas dimensões em sua casa de espelhos, mas nenhuma condiz com a realidade. Nesse precipício, muitas voltas não têm recomeços. Nessas notas tão amargas só existe um poço sem fundo que te carrega e sufoca na urgência por companhia, mas eu avisei. Eu vi você em sua própria vida. Nos espelhos da mentira. As lágrimas do seu "sofrimento" são vitrais que contam histórias da forma mais dolorosa possível: rasgando camadas profundas. Uma ilha se forma ao redor do seu corpo e então surge uma floresta, labaredas de fogo e a única coisa que se vê é morte. A única coisa que se sente é solidão. Nessas horas, você até tenta se acolher na maldade instintiva do ego. O sangue pulsa, o pulso sangra e os olhos ver...

NAQUELE DIA

Até então, remanesço sentindo falta dos momentos que compartilhávamos. Perco o sono revivendo-os. O tom da sua risada misturada com conversas sem sentido algum, acompanhados por danças parvas em cima do colchão. Travesseiros jogados pelo quarto por conta de tentativas falhas em acertar um ao outro - no fim das contas sempre acabávamos aos beijos, e a garrafa de vinho branco na geladeira, a última fatia de pizza sobre a mesa (avistada enquanto preenchíamos nossas taças com mais vinho). Eu lhe implorava para comer de uma vez aquele pedaço restante, você dizia não enquanto dava a primeira mordida. Sentei no sofá da sala e seus olhos me acompanharam, em seguida seus pés ladrilharam em direção ao recinto. Nem consigo lembrar com exatidão a respeito do que conversávamos, mas sei que eram coisas profundas. - Me aconcheguei em seus braços e, naquele momento, eu só tinha certeza de que era você. Seu sotaque, energia e todas as suas formas de me fazer gargalhar. Tudo era tão simples naquele ...

MENTES RASAS

Houve um momento em que verdadeiramente considerei  lábios terráqueos um labirinto pelo qual gostaria de passar a vida desvendando. Os corredores sem saída me pareciam oportunidades para apreciar a aventura que era perder-me nos mistérios do corpo humano, no bagunçar dos cabelos e em todos os detalhes que compunham momentos relacionais mais descontraídos. Óbvio que estive presa no ideal dos amores impossíveis e reviravoltas de um enredo batido em filmes de época. Obsoletos cálices, preenchidos por uma falsa esperança de viver algo profundamente irreverente.  A mentalidade rasa que domina as relações faz com que pessoas se direcionem a um lugar, na verdade, inexistente. Fingem seguir uma direção concreta, mas nunca chegam simplesmente porque não há local algum para se estabelecer, e mesmo que considerassem a possibilidade, são vazias demais para se preencherem a ponto de permanecer de modo congruente. Não há conteúdo - só um amontoado de ossos cobertos por tecido adiposo. Há u...