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Mostrando postagens de março, 2021

CEMITÉRIO

 Meu corpo é o sussurro das almas perdidas.  Nas ruas,  nas curvas turvas das inúmeras casas da morte. As lápides bordam flores secas de um amor relapso em vida. As lágrimas gritam em suas poças, refletindo angústia. Deitada em um chão imundo de um lar indesejado pela maior parte dos seres, sinto-me inclinada a ficar. Ficar no cemitério dos teus pesadelos e ser a lápide das tuas retratadas indiferenças, chamadas rosas. Brancas.  No súbito cansaço dos meus pensamentos barrocos, imaginei ser quem carrega o céu e o inferno nas costas. Imaginei a cova da morte Imaginei o cemitério dos vivos Imaginei... mas só vi relento.  Senti o sabor da terra em meus lábios, e os corpos ligando-se ao meu, como se fossemos um. Amei tantas vezes por tantos túmulos que a morte me revigorou. Chorei tanto pelo pranto dos vivos que, em cada lágrima caída em meu corpo, agradeci pela beleza que há no perdão.  Sou um cemitério dos teus segredos.  Tu, que és morto e nem sabes....

UMA QUESTÃO DE TEMPO

 Uma vida extraordinariamente comum, essa é a vida que eu quero ter. Num lugar pacato, ao lado de quem eu ame tanto quanto amo escrever enquanto o café fica pronto. alguém que carregue serenidade no jeito que encara as coisas. Aproveitar cada momento. Sentir o valor nos profundos silêncios. Fazer amor com a vida. Ter alguns gatos, árvores e tulipas (eu amo tulipas negras; vermelhas também). Não sei exatamente como, nem quando, mas hoje eu quero pensar que tudo isso está prestes a acontecer, porque é o que me salva de mim mesma e de toda a urgência que há em meu ser.  É uma questão de tempo. Tudo irá se encaminhar para meu anonimato. Eu preciso disso para in(existir). Deitar sobre um lençol estendido na grama, beijar meu melhor amigo e amor. Amar no amanhecer e me entregar nos braços de Gaia. Deixar ser, sem me intrometer em processo algum. Observar-me como um cientista que avalia coleta dados empíricos.  Perder o controle Entregar-me totalmente ao acaso Só para poder come...

DIGITANDO

 Eu sei usar palavras para explicar o que sinto, mas nem sempre consigo tirar de mim tudo que gostaria. Na maioria das vezes eu acho que poderia falar mais, explicar melhor e definir com mais precisão. Ainda existem muitos talos em minha garganta. Talvez amanhã, ou depois, eu consiga me livrar deles. Por enquanto eles continuam aqui. Aqui e nessas linhas tortas da minha vida. É que existem coisas que não consigo dizer, só sei sentir profundamente, e parece que isso já se faz suficiente para eu prosseguir nessa jornada tresloucada que é viver. Escrevendo eu sinto que as coisas começam a fazer mais sentido para mim, e o que eu mais amo é essa sensação de liberdade que as palavras me dão. Me sinto dona do mundo quando estou aqui, digitando pedaços de quem sou. Alinhando a mente ao coração e, então, parece que meus anseios se acalmam e eu só preciso existir nesse agora. Só agora, e fim. E esse fim é infinitamente melhor do que qualquer outro, porque se trata de um recomeço.  A esc...

EM MIM

 A mente veleja por mundos distintos.  O céu desbota.  E eu permaneço aqui,  (em mim)  Parece que esse é o único lugar que me aceita como eu sou. Muitas vezes acabo me perdendo  enquanto tento encontrar um espaço adequado para existir,  sendo que esse lugar já existe. Esse lugar sou eu.  (Victória Elsner)

MEU CORAÇÃO

Meu coração está fechado para sempre.  Nunca mais vou amar ninguém.  É melhor assim.  Já cansei de sofrer  por conta de paixões tresloucadas.  O mundo não se importa com nossas dores,  quem dirá com nossos amores.  Amar é mistério que deixo aos corajosos. Digo isso porque diante deste verbo eu me acovardo.  Não sei amar direito.  (Victória Elsner)

CHÁ COM GRANOLA

É cedo, estou em casa, pantufas calçam meus pés e uma manta enrola meu pescoço. Chimarrão é sempre bem-vindo, portanto, a água já está sendo aquecida e colocada na térmica, cuia e, por fim, erva-mate. Vou fazer um chá para aquecer-me – mas já não fiz chimarrão? Chove lá fora e o vento está gélido. Dia nublado, coração apertado e, na janela, o verde da natureza. Minha perna está trêmula. Faculdade é uma grande loucura, e combina comigo porque sou sempre louca, não importa onde, quando, quanto ou por quê... Já volto - preciso fazer esse chá, e será de maracujá. Voltei aqui enquanto a água ferve; sim, por puro desassossego. Tenho exames para efetuar essa semana, vou falar sobre aquilo que aprendi no semestre inteiro, qual o problema? E ainda tenho possibilidade de consultar o material, ou seja, tudo está na mais perfeita harmonia, porém a mente vem e fica de conversinha comigo e aí sinto como se tudo estivesse prestes a desmoronar. Fazem dias que quero escrever, mas a inquietude toma cont...

CÉU CINZENTO

  É madrugada.  Não consigo dormir recordando-me de um céu cinzento de uns poucos dias atrás, onde o vento brincava com meus cabelos enquanto meus cotovelos apoiavam-se na janela do quarto.  Choveu forte naquele dia,  e isso refrescou bastante a região como um todo.  Estou comentando essas coisas porque ainda sinto medo de expressar meus sentimentos, e falar sobre o tempo é o que se faz quando não se quer falar sobre nada em específico.  Temo porque um dia entreguei-me por inteiro e sofri.  Sofri tanto que, atualmente, só alguém que esteja realmente disposto a conquistar-me seria capaz de me fazer companhia, pois não me demoro em coração algum. Não depois do que vivi. Alguém que não só me diga, mas que também aja de acordo; que more no sabor existente no desfrutar da própria companhia e consiga compreender a complexidade residente no ato de simplesmente ser.  Tudo que sinto ao relembrar do céu cinzento é reflexo das lembranças guardadas desse amor...

MINÚCIAS

Não foi por acaso que olhei em teus olhos e desejei teus lábios. Não eram os mais belos que já vi, porém me atraiam de modo colossal - mais do que vossa mercê possa cogitar. Também não fora casualmente que decidi sair de sua vida para nunca mais voltar, tenha certeza de que ponderei por muitas noites até decidir por rumar outras estradas. Amei-te mais do que fostes capaz de assimilar, e é por isso que parti:  porque sua mente não lograva compreender o que eu esperava de nós dois. Ainda lembro tanto das ilusões que criei a nosso respeito. Nunca concebi olvidar-te. E hoje escrevo esses pormenores para que meu coração entenda que tudo se foi e não há mais nada. Olho para mim e penso "Olhe só o que você fez! Parece que realmente fizera questão de perder o pouco que tinha", e posso te sentir perto de mim respondendo "É. Essa foi sua escolha". E então eu crio mil e uma possibilidades para um enredo que já acabara há tanto... Eu tentei, fiz meu máximo em cada detalhe desse...

INCÊNDIO

À noite eu fecho meus olhos  e sonho com um lugar que nem sei descrever,  só sei que é pequeno e não cabe mais ninguém além de mim,  e lá eu seguro uma vela.  Olho para o fogo e,  por muito tempo,  este mesmo me olha de volta e um pensamento crepita em meu interior:  "Toda a balbúrdia que vivenciamos é causada pela imaturidade latente de nossas almas - amamos as pessoas ao mesmo tempo em que as destruimos, muitas vezes, quase por inteiro. Não sabemos apreciar sem depredar. " Incêndio. (Victória Elsner)