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Mostrando postagens de janeiro, 2019

FLORES MARCESCENTES

Andei por todos os enredos possíveis, chorei por verdades que pareciam mentiras e, no final, sequei como folha de outono. Derramei-me por inteiro em cada passo, senti o mundo se desfazer aos poucos e, por certos momentos, perdi-me. Em mim não via contexto, pretexto ou o que seja. Em mim não vertia sangue, não se tinha nada. A janela que tanto olhei guardava segredos que, outrora, me eram óbvios por si só, mas com os olhos ressequidos já não pudera eu compreender os mesmos. Nos dias em que andei sobre as flores secas em meu jardim, tive a certeza de que quanto menos palavras eu dissesse, quanto mais longe eu estivesse, mais perto estaria de mim. Não importar-me-ia a distância, no meio de tantas realidades fotografadas em uma mente sonhadora. Não importar-me-iam as lembranças chuvosas e vagas de um oceano reservado em conta-gotas. Não, ressalto, não afetar-me-iam mais os desconchavos do externo. Como se eu pudesse piscar os olhos e sentir a brisa do céu, interpelou-me uma estrela. No...

NÃO MUDA

Não muda a cor da parede do teu quarto, só me dá um universo dentro desse espaço, porque todo o tempo que não se gasta com amor é totalmente desperdiçado. Só sorri com todo esse viço, enquanto eu me deleito com essa manhã amena em que me serves um café amargo e não te importas em me ver com os cabelos desgrenhados e, despretensiosamente, com tuas roupas do avesso vestindo meu corpo. Só esquece tudo o que dissemos sobre ter medo de se envolver demais e nos deixa contar as estrelas que se formam ao fecharmos os olhos e passearmos por nossas próprias malícias. Enquanto envelhecemos a cada amanhecer, tudo o que temos é isso mesmo que podes ver e sentir. Confia no escuro e me leva junto, porque a vida é um infinito agora, e não saber o que fazer é um dilema que exige muito tempo pra se resolver, então me deixa beijar a tua boca e tirar as tuas roupas enquanto o filme passa na televisão. Me deixa desvendar esses mistérios todos que os teus atos codificam quimericamente e tua face inten...

COGNOMINA-ME "TEU"

Contida era ela em seus passos, mesmo que uma chuva de meteoros quando em meus braços.   Na vida fazia ela linhas verticais em tons de cinza e tudo me parecia tão simples que até pensava que complicar não seria má ideia. A mesma me avisara que não poderia se demorar onde não coubesse sua intensidade, que não havia abismo pior do que pensamentos que se contradizem com as batidas do coração. Era ela, Era eu, E nossos corpos se faziam um. Admirando seus olhos negros, admiti para mim mesmo que não havia nenhuma outra condição suportável que não fosse a de tê-la somente para mim. Aquelas íris penetrando - e transpassando Minh ‘alma a cada sorriso - não me davam trégua para imaginar algo diferente do que compartilhar o travesseiro e o edredom num domingo chuvoso, de sol, nublado, inexistente, apocalíptico, curvilíneo, lânguido e obscenamente despretensioso. Era ela Me bagunçando inteiro Naquele beijo inconspurcado Que me enlouquece Cabalmente     Digo...

SOB O SOL

Estou na chuva Nos braços de um galho seco. Estou na rua Assim como as migalhas que jogam-se aos pássaros Num beco escondido. Recôndito é o pensamento Que me implora por algo além do que meros segundos de existência Mas estamos todos sob o sol. Estamos todos sob o mesmo prefixo imutável O mesmo véu de mormaço fotossintético que nomeia o dia E finda a beleza falsa de uma lua praticante do latrocínio há muito. Ósculos Cópulas Todos os atos são come tidos sob, talvez, um sol distante Mas nunca ausente. Abaixo do astro reinam as flores e, Entre as mesmas A dor do animal crudívoro, que pasta em escravidão eterna. Sob os fótons reina a procrastinação tão praticada na atualidade, Mas que não progride na labuta em grande escala. E este mesmo que abraça multidões famintas pelo tudo que não tiveram É, muitas vezes, insuficiente para os néscios Mas sinônimo de companhia para os apreciadores da solidão. Eu Sob a estrela Refli...

À NOITE

Aguardei-te taciturna sentada em frente ao cemitério. Ao lado, uma capela reafirmava o clima ameno e excentricamente interiorano do local.  A meia luz que amparava arbustos e flores também servia-me como abrigo. Ouvi teus passos, o coração acelerava os batimentos enquanto a mente planejava a melhor maneira de lhe cumprimentar pessoalmente pela primeira vez. Um breve beijo onde as bochechas se encostam e o estalo é jogado ao ar, assim foi... acomodou-se ao meu lado e então nossos olhares se encontraram e parecia que, por meros segundos -que pareciam minutos- dissemos sem dizer que o que queríamos era exatamente a mesma coisa: um ao outro. Conversar sobre a ininterrupta capacidade humana de se reinventar, sobre as tecnologias espaciais e possíveis abduções num dia de chuva... trocar informações a respeito do quanto somos relapsos quando se trata de experimentar toda a aventura que é viver e resgatar a si próprio... No fim das contas tudo se tratava de estar perto, sintonizar as...

DOR

Teu amor matou-me, sequestrou o que havia de esperança em mim, e então deixou rastejar de dentro para fora toda a essência que algum dia considerei como minha. Te conheci em uma sombria avenida e você não descansara até fazer-me implorar por tudo aquilo que sempre tive, e dar-te tudo aquilo que considerava insano.   Entreguei-me de forma louca, e recebi angústia. Angústia essa que chamo de ódio amargo e cruento – que pulsa grave e destroça-te em pensamento. Estou louca, estou desvairadamente sedenta pela ruína total da tua alma – do gosto que sufoca meu palato vem um furacão, do desgosto que reside como carniça em minha boca sinto teus odres pútridos e identifico toda a maldade existente em teu ser.   Nos braços da vingança, a fumaça cinzenta que desbota em meus lábios, lembra-me de tuas preces malditas, e então eu entendo como nunca entendi antes. Entendo nas entrelinhas do teu sinuoso e ominoso olhar o quanto quero matar-te, o quanto quero arrancar tuas entranhas ...

NOSSO CORPO

O jeito que me olhas, a forma que me tocas. O beijo ferozmente delicado e a boca macia. Imagino-me nela como em uma cama na qual me embebedo de um cálice vicioso: teu gosto.  As tuas mãos em mim, este corpo sobreposto ao meu. Dedos que salpicam minha derme, passeando por minhas curvas. Sinto-me nas estrelas ao sentir teus lábios a ladrilhar o caminho sinuoso da minha carne. Não me importo com mais nada além do horizonte que se cria dentro de mim e acopla um novo universo: estes olhos, sim, estes mesmos que me causam arrepios por serem tão profundos quanto o oceano. Não te intrigues, mas é que em tua presença eu dispo a alma e perco o controle sobre os desígnios impuros que se formam em minha cabeça e que latejam por meu corpo. Corpo este que implora pelo teu. Corpo este que mora em tuas mãos e que goza em duplos desatinos. Temos nuances de um livro sobre sexo no amor - amor no sexo- mas na verdade o que somos é um dos poucos sentimentos que não se sabe descrever. O dicio...

NÃO POR ISSO

Há um lugar onde costumo chorar muito e perder as forças. Onde decido morrer   e mato-me. Há um lugar onde a esperança não bate. É lá que estou. Não por isso, não por aquilo. Não porque meu coração sangra todos dias, Não porque a decepção dói demais. Mas porque as lágrimas e cicatrizes nunca esqueceram-se de mim. Mas porque no escuro eu reprimo meus dissabores. Mas porque no sol estendi minhas roupas e as deixei queimar. Não é por nada que a morte me visita, é por tudo o que minha alma verte. - Victória Elsner

CONTO DE FADAS

Deleita-te em teu próprio sangue, veste tuas próprias autoquírias... Lê teu livro, vê teu olho gélido e morto, (de)compondo teu corpo. Deita-te em teu chão mortiço, no caniço do que dizem ser blasfêmia. No abraço do que dizem verter em nequícia. Numa escada central e em vários e vários remendos costurados no corrimão, no sangue espalhado pelos móveis e pelo chão da tua casa. Do teu quarto. Na ideia de estar petrificado em uma poça de sangue, sangue esse que vertia em tuas veias e que teu peito pulsava, bombeava por todo o teu corpo, trazendo o viço necessário para tua existência em matéria. Em carne. Isso, a tua carne, morta. Vê-te em teus próprios sonhos e, no véu mais obscuro de um anoitecer minaz, nos braços de um crepúsculo que, juntamente com o teu corpo, é velado em fenecimento. Tudo virou um beco tão fumacento quanto o cigarro que passeava em teus lábios. Aceso, sem medo. Nada de muito grandioso lhe fora proporcionado, quer dizer, a crueldade descomunal, teu sangue ve...

EM CASA

 Mate o meu amor   Mate em prol da dor   Pois em meu peito não há nada.   Não compadeça-te, coração   Não te preocupes, solidão   Pois é aqui, nesta estação, que morro.   Mate, por favor   Só pelo dissabor   Pelo gosto da verdadeira diligência   E assim, a encontrarei em casa.  - Victória Elsner

SOMOS

Inversos Somos invernos. Polos norte e sul. Internos Somos infernos Acreditamos ser Ego Queimando em terno, roupa, gravata e cetim. No Todo, Temos desde o pó de nossos corpos Formados à meia luz das estrelas. Sabemos de cada grão de areia. Tudo está sob nosso controle. Uni(versos) Todos completos, Uma compreensão de amor.   E então sabemos o que somos: Infinitos. - Victória Elsner

OUTRA SAÍDA

Maldito seja o sonho, de acordar e ver-te Maldito seja o ilusório caminho, que me leva até você Maldito, maldito seja Foi nesta madrugada, foi nesta escada Que chorei sem crer que te perder seria tão doloroso Que sofri muito porque não veria mais teu rosto Por isso, maldito, maldito seja Pois a morte sempre foi homicida declarada É só o sonho que, de forma umbrática, me faz crer que existe outra saída. Outra saída para chegar até teu corpo Outra saída para beijar o teu rosto e acariciar teus cabelos. Outro modo de te ter de verdade, e não pelo vislumbre. Não só pelos espelhos de um desejo eterno   É só por isso que digo: Maldito, maldito seja o sonho, pois não há sentido para nada Não quando o exício chega. - Victória Elsner

QUARTO 7

Beijei o teu corpo como o mar beija os grãos de areia. Acariciei-me em teu mais íntimo. Queimei em teu suor, cerrei os punhos e perdi-me no tempo.  Uma névoa cobriu nossas mentes e nos impelira desejos que se misturaram entre o lado mais lascivo da paixão e toda a ternura de quando se quer tanto que se deixa salpicar pelo chão. É líquido, escorre em nossas mãos e nesse quarto. Estávamos a ver estrelas há poucos dias, e, no fim, também as vimos entre toques e pecados - se eu estiver errado então somos cúmplices neste delito. Somos totalmente culpados por nos deixarmos levar por nossos próprios lábios macios e pretensiosos. Eram nossos olhares, Eram nossas mãos E nossos corpos Esparramados Um No outro. Passionais. Ávidos pelo que há de mais insano. Nada puritano. Mesmo que puramente sincero. Nós, naquele quarto a sós. Aficionados em grau equivalente, impetuosos em beijos ardentes, somente poderíamos nos render ao que chamam de fascínio - um suntuoso ...

CONOSCO

Se sua memória fosse como meus lábios, talvez não houvesse um hiato ao redor de nossos corações. Se sua amargura não fosse como uma muralha, talvez não houvesse tanta dor quando pensasse a meu respeito, e então eu ladrilharia pelos pastos mais verdes ao invés de adentrar em uma tempestade barroca.   Se eu pudesse arruinar meus passos, quebrar meus odres e rasgar-me por inteiro para nunca mais, então eu jamais encontrar-me-ia com teus jazeres. Jamais chamar-te-ia em minhas próprias migalhas ou visualizaria tua face pelas águas cristalinas da, novamente, memória.   Maldita memória que destrói e acorda pretéritos erros. Maldita sessão cerebral que interliga a ação ao coração, que chama o sentimento irreprimível de extrema paixão, sinônimo de intensidade, o que me faz pensar: seríamos nós impetuosos demais em contrariedades?   Seriamos nós o famigerado Hades? O fogo, o descontrole, os temperamentos exaltados, as horas que passam e tiram nossas roupas ao mesmo tem...

SEM METADES

Se existissem milhares de flores em mim, se houvessem dúzias de pétalas despedaçadas no lugar de meus ossos eu diria estar em uma jornada incrível para lugar nenhum. Eu faria tudo que pudesse para esquecer do ontem e jamais cogitar o amanhã... Um jazigo seria ideal para repor as energias, e a terra cobriria meu corpo e todos os meus intentos. Expectativas não servem para nada. O gosto dos grãos em meus lábios, cobrindo meus olhos enquanto milhares de vozes se difundem em sussurros cada vez mais baixos, milhares de escolhas cada vez mais distantes do que alguns dizem ser o “outro lado”. Eu não preciso mais respirar e nem vestir-me. As densas camadas de matéria não comportam mais para mim...   Te vejo do outro lado, te vejo no avesso deste rumo. Na curva que mais amedronta a mente humana. Sim, esta que muitos nomeiam Morte.   Eu gosto deste gosto suave do sangue em meus lábios ébrios. Minh’alma ressurge como uma grande fumaça. Meu gosto é obscuro e delicadamente obs...

VERSOS ESCUROS

Os dias nascem quadrados As noites dormem de lado Até o sol se põe ao contrário, Não que isso seja errado Não dentro do meu coração. Não reconheço mais teus lábios Nem o gosto do café ralo Nem o ângulo dos teus passos Mas lembro do quanto fizeste-me sofrer Continuo matando-te em cada gole sem açúcar Cada verso sem ternura Que joguei pela imensidão. Continuo caminhando por estrofes de tortura Não que isso não machuque-me o ventrículo Só que em minhas íris ainda reflito a escuridão Existem versos e versos Este é somente para isso Matar-te em palavras, romantizar minha angustia E, por fim, pensar em como tudo poderia ter sido diferente. - Victória Elsner