
Deleita-te em teu próprio sangue, veste tuas próprias
autoquírias... Lê teu livro, vê teu olho gélido e morto, (de)compondo teu
corpo. Deita-te em teu chão mortiço, no caniço do que dizem ser blasfêmia. No
abraço do que dizem verter em nequícia. Numa escada central e em vários e
vários remendos costurados no corrimão, no sangue espalhado pelos móveis e pelo
chão da tua casa. Do teu quarto. Na ideia de estar petrificado em uma poça de
sangue, sangue esse que vertia em tuas veias e que teu peito pulsava, bombeava
por todo o teu corpo, trazendo o viço necessário para tua existência em
matéria. Em carne. Isso, a tua carne, morta. Vê-te em teus próprios sonhos e,
no véu mais obscuro de um anoitecer minaz, nos braços de um crepúsculo que,
juntamente com o teu corpo, é velado em fenecimento. Tudo virou um beco tão
fumacento quanto o cigarro que passeava em teus lábios. Aceso, sem medo. Nada
de muito grandioso lhe fora proporcionado, quer dizer, a crueldade descomunal, teu
sangue vertendo o mais profundo despautério... Retiro o que disse. Tua morte
fora um ato magnânimo. A beleza suntuosa na qual esbaldo-me. Fecha tua íris e
volta-te para a escuridão, sinta as lágrimas inexistentes. Sinta a tua própria
ausência, pois dentro de teus ensejos tu sempre escolhestes o escuro e
solitário percurso, que agora, percorres sem nem mesmo a tua própria companhia.
Beija tua pele sangrenta, tua mente sedenta no corrimão. Chora no tom escarlate
de tuas veias enquanto o sol da janela queima teu corpo albino. Corpo morto,
corpo obsoleto. Aprofunda-te em tua ferida, alma sôfrega, esfrega-te em tua
própria carne até corroer-te os ossos, pois estás sozinho. No brilho do teu
céu, nos declives de tuas asas, no sol que se findara... Aí estás, no teu tão
sonhado conto de fadas: Inexistente.
- Victória Elsner
- Victória Elsner
Belo texto. Muito bom. Parabéns!
ResponderExcluirMuito obrigada!
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