Não paramos muito para pensar no valor de uma lembrança, porém há algo muito precioso em lembrar-se. A mente é uma incrível invenção divina. É o lugar da atividade psíquica, considerada na sua totalidade e engloba operações conscientes e não conscientes. Não é, portanto, algo material – uma coisa – mas sim algo imaterial, que não se vê nem se pode tocar. Transcende, e é aí que mora o mistério. Meu psicólogo me contou que sua mãe está numa fase crítica, sofre de Alzheimer e já não tem tanta facilidade para manejar as próprias memórias, mas isso não significa que elas não estejam lá, armazenadas nas misteriosas gavetas da mente. Ele me contou que fizera muitas coisas na tentativa de ajudá-la a reconhecê-lo. Tentara de tudo, porém o que foi verdadeiramente efetivo me deixou emocionada: uma pequena oração que começava com “Ich bin klein…” e o resto eu já não consigo recordar porque alemão ainda não é uma língua que eu domine, porém o importante é que ela completou a oração, pois se tratava de um costume que tinha desde os primórdios da existência de seu filho (meu querido, e fantástico, psicólogo) o que fez-me divagar sobre o peso que o amor tem. O tal do “liebe” abre portais que nos fazem ultrapassar as limitações. São muitas as tentativas de explicar o amor, porém não há nada mais belo do que esses pequenos milagres que acalentam a alma e fortalecem o espírito.
A emoção encontra lágrimas, e as mesmas se acomodam na face. Esse ocorrido é um pedaço do céu se encontrando com a humanidade, dizendo que ainda há motivos para acreditar, que ainda há uma razão muito sensata para prosseguir e amar ao próximo como a si mesmo. Tudo isso me faz ter certeza que o amor tem memória, e a mesma é intrínseca ao que denomino por devoção.
(Victória Elsner)

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