
Andei por todos os enredos possíveis, chorei por verdades
que pareciam mentiras e, no final, sequei como folha de outono. Derramei-me por
inteiro em cada passo, senti o mundo se desfazer aos poucos e, por certos
momentos, perdi-me. Em mim não via contexto, pretexto ou o que seja. Em mim não
vertia sangue, não se tinha nada. A janela que tanto olhei guardava segredos
que, outrora, me eram óbvios por si só, mas com os olhos ressequidos já não
pudera eu compreender os mesmos. Nos dias em que andei sobre as flores secas em
meu jardim, tive a certeza de que quanto menos palavras eu dissesse, quanto
mais longe eu estivesse, mais perto estaria de mim. Não importar-me-ia a
distância, no meio de tantas realidades fotografadas em uma mente sonhadora.
Não importar-me-iam as lembranças chuvosas e vagas de um oceano reservado em
conta-gotas. Não, ressalto, não afetar-me-iam mais os desconchavos do externo. Como
se eu pudesse piscar os olhos e sentir a brisa do céu, interpelou-me uma
estrela. No véu maciço, questionou-me Vênus e até Marte: por que escreves?
Então, na terra, vi-me entre fauna, flora e, no verde dos esgalhos, deparei-me
com a riqueza de cada flor - esquinas idílicas da natureza. E minha resposta
foi sucinta, considerando o fato de que estive eu no primor, estive eu na dor,
mas o que fizera-me escrever não fora isso, nem aquilo. Não foram referências
nem autores daqui ou de acolá. A ideia de que nenhuma palavra basta, mas que
todas são impudicamente bem-vindas, a conjuntura de que o ideal não é nada mais
e, nem nada menos, do que um postulado vetusto. Todas as inúmeras invenções
humanas, ávidas por destruir aquilo que já está perfeito em suas próprias
limitações, estão em seu ápice quando reconheço-me fadada todos os dias a
transbordar, assim como as flores a marcescer.
- Victória Elsner
- Victória Elsner
Comentários
Postar um comentário