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CONOSCO

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Se sua memória fosse como meus lábios, talvez não houvesse um hiato ao redor de nossos corações. Se sua amargura não fosse como uma muralha, talvez não houvesse tanta dor quando pensasse a meu respeito, e então eu ladrilharia pelos pastos mais verdes ao invés de adentrar em uma tempestade barroca.
 Se eu pudesse arruinar meus passos, quebrar meus odres e rasgar-me por inteiro para nunca mais, então eu jamais encontrar-me-ia com teus jazeres. Jamais chamar-te-ia em minhas próprias migalhas ou visualizaria tua face pelas águas cristalinas da, novamente, memória.
 Maldita memória que destrói e acorda pretéritos erros. Maldita sessão cerebral que interliga a ação ao coração, que chama o sentimento irreprimível de extrema paixão, sinônimo de intensidade, o que me faz pensar: seríamos nós impetuosos demais em contrariedades?
 Seriamos nós o famigerado Hades? O fogo, o descontrole, os temperamentos exaltados, as horas que passam e tiram nossas roupas ao mesmo tempo que nos beijam com os temperados segundos que se destroem aos poucos?
Quando vejo o chão, passo os seus braços por minha silhueta e percebo que poderíamos estar perto demais. Perto demais do amor, do ódio, da morte, do céu e da grande ladra noturna.
Perto demais de nossas próprias almas. Almas escuras que se rasgam em busca do pior final possível.
 Poderíamos estar incrivelmente perto da vida bucólica que tanto sonhávamos, mas que nunca estivemos certos de que realmente era o que almejávamos em verdade. Ora buscando calmaria e tranquilidade em um tronco qualquer que trouxesse luz; ora rústicos em busca de uma presa, sangue e noites. Sedentos por uma fuga do dia e de qualquer risco fotossintético.
Seríamos nós hematófagos ou epífitos? Mesmo que tua memória vestisse as mesmas invectivas que a minha, não o saberíamos.
 Se suas lembranças fossem como as minhas, estaríamos numa nuance tão barroca quanto nossas paixões. Estaríamos no céu e depois do inferno. No prazer e no desgosto. No preto e no branco, e, por fim – depois de tudo, tudo mesmo –, estaríamos conosco.

- Victória Elsner




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