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NOSSO CORPO


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O jeito que me olhas, a forma que me tocas. O beijo ferozmente delicado e a boca macia. Imagino-me nela como em uma cama na qual me embebedo de um cálice vicioso: teu gosto.
 As tuas mãos em mim, este corpo sobreposto ao meu. Dedos que salpicam minha derme, passeando por minhas curvas. Sinto-me nas estrelas ao sentir teus lábios a ladrilhar o caminho sinuoso da minha carne. Não me importo com mais nada além do horizonte que se cria dentro de mim e acopla um novo universo: estes olhos, sim, estes mesmos que me causam arrepios por serem tão profundos quanto o oceano. Não te intrigues, mas é que em tua presença eu dispo a alma e perco o controle sobre os desígnios impuros que se formam em minha cabeça e que latejam por meu corpo. Corpo este que implora pelo teu. Corpo este que mora em tuas mãos e que goza em duplos desatinos. Temos nuances de um livro sobre sexo no amor - amor no sexo- mas na verdade o que somos é um dos poucos sentimentos que não se sabe descrever. O dicionário até tenta se redimir por ter perdido as palavras conosco, mas não tem como expressar o cheiro, o apetite ou a gente se beijando em cima da tua, nossa, não. Não. Cama que saliva com o teu, meu. Nosso corpo. Uau. Somos uma casa cheia de malícia. Isso. Somos o sono que dá depois de ir ao céu e voltar. E voltar. E voltar.  A gente se ama na beira da praia que jorra o sabor do pecado. Não somos santos quando se trata de sentir.  Vibro de prazer em meros devaneios enquanto o tempo todo se vai. Esgotamos, sentimos tesão. Intensidades que não se preocupam em intercalar e que me fazem querer, colossalmente, ter para sempre as chaves que abrem as portas do paraíso que encontramos no que muitos dizem ser impunidade, mas que é somente a homogenização mais íntima que pode haver entre quatro paredes e dois corpos à meia luz. E isso, para mim, é melhor do que a intervenção celeste.

- Victória Elsner

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