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DOR


story inspiration

Teu amor matou-me, sequestrou o que havia de esperança em mim, e então deixou rastejar de dentro para fora toda a essência que algum dia considerei como minha. Te conheci em uma sombria avenida e você não descansara até fazer-me implorar por tudo aquilo que sempre tive, e dar-te tudo aquilo que considerava insano.  Entreguei-me de forma louca, e recebi angústia. Angústia essa que chamo de ódio amargo e cruento – que pulsa grave e destroça-te em pensamento.
Estou louca, estou desvairadamente sedenta pela ruína total da tua alma – do gosto que sufoca meu palato vem um furacão, do desgosto que reside como carniça em minha boca sinto teus odres pútridos e identifico toda a maldade existente em teu ser.  
Nos braços da vingança, a fumaça cinzenta que desbota em meus lábios, lembra-me de tuas preces malditas, e então eu entendo como nunca entendi antes. Entendo nas entrelinhas do teu sinuoso e ominoso olhar o quanto quero matar-te, o quanto quero arrancar tuas entranhas e esfacelar teus órgãos. O quão intensa é a minha fome por empalar-te, denominar-te como escumalha e manter-te vivo neste sofrimento. De todo o meu calabouço obscuro eu desejo que os teus olhos não vejam os meus, que tua carcaça indigna torne-se putrefata enquanto rezas em tuas próprias imundícies.
Dor. A demência bebe o seu cálice e despeja sobre a cabeça dos ímpios suas cobranças. Dor. A pobreza de espirito enriquece e atiça seus aliados através da ganância. Dor. No abrigo de suas asas desvaneci, mas o que menos quero é em tuas lágrimas verter compaixão. Nunca estive tão certa de que não há fascínio, mas sim traição; e como labaredas de fogo caminho em direção ao punhal que executará meu lúgubre desgravo, e sinto-me radiante pelas ruas antigas e fumacentas do meu coração partido. Há verdade em meus pulsos. Meus olhos estão ávidos pelo sangue de tuas mentiras e a retaliação refresca tudo por dentro. Não há sequer um absoluto nesta vida, e se houver, desejo que se prostitua às custas de uma sorte qualquer enquanto queimo no inferno do que sobrara de meus sonhos, do que sobrara de minhas utopias e, principalmente, de todo o vazio que sobrara de mim.

- Victória Elsner

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