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NAQUELE DIA


Até então, remanesço sentindo falta dos momentos que compartilhávamos. Perco o sono revivendo-os. O tom da sua risada misturada com conversas sem sentido algum, acompanhados por danças parvas em cima do colchão. Travesseiros jogados pelo quarto por conta de tentativas falhas em acertar um ao outro - no fim das contas sempre acabávamos aos beijos, e a garrafa de vinho branco na geladeira, a última fatia de pizza sobre a mesa (avistada enquanto preenchíamos nossas taças com mais vinho). Eu lhe implorava para comer de uma vez aquele pedaço restante, você dizia não enquanto dava a primeira mordida. Sentei no sofá da sala e seus olhos me acompanharam, em seguida seus pés ladrilharam em direção ao recinto. Nem consigo lembrar com exatidão a respeito do que conversávamos, mas sei que eram coisas profundas. - Me aconcheguei em seus braços e, naquele momento, eu só tinha certeza de que era você. Seu sotaque, energia e todas as suas formas de me fazer gargalhar.
Tudo era tão simples naquele dia.
Naqueles beijos repletos de verdade...
Naquela saudade profunda e tresloucadamente sedenta pelo próprio exício.
Era naquele mundo paralelo que desenvolvíamos, ao longo de tudo o que nos permitíamos compartilhar juntos, que eu sentia haver possibilidade de amar.
Naquele dia eu sei - tenho absoluta convicção - que dentre os múltiplos detalhes diante de minhas lumes, o único persistente em impedir meu sono até hoje é: "eu amei você".

(Victória Elsner)

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