Houve um momento em que verdadeiramente considerei lábios terráqueos um labirinto pelo qual gostaria de passar a vida desvendando. Os corredores sem saída me pareciam oportunidades para apreciar a aventura que era perder-me nos mistérios do corpo humano, no bagunçar dos cabelos e em todos os detalhes que compunham momentos relacionais mais descontraídos. Óbvio que estive presa no ideal dos amores impossíveis e reviravoltas de um enredo batido em filmes de época. Obsoletos cálices, preenchidos por uma falsa esperança de viver algo profundamente irreverente.A mentalidade rasa que domina as relações faz com que pessoas se direcionem a um lugar, na verdade, inexistente. Fingem seguir uma direção concreta, mas nunca chegam simplesmente porque não há local algum para se estabelecer, e mesmo que considerassem a possibilidade, são vazias demais para se preencherem a ponto de permanecer de modo congruente. Não há conteúdo - só um amontoado de ossos cobertos por tecido adiposo. Há uma massa cinzenta preenchendo a lacuna entre as orelhas, ações repetitivas e instinto - nada atípico sob o sol. Este é o pior momento de minha vida, pois percebo que me entedio muito facilmente com seres humanos. A previsibilidade é latente, e sou extremamente ávida por tudo o que muitos dizem ser de outro mundo - talvez meu amor seja mesmo extraterrestre.
Houve um tempo em que cri na possibilidade remota de cair nos braços do surpreendente contexto de um amor humano consistente, porém, o calabouço ventricular que pulsa neste corpo é muito lógico, e livre, para deixar-se levar por qualquer arcada dentária bem ornada entre as bordas de mucosa que revestem a boca humana e suas palavras sem significado real. Me despeço desta experiência empírica, e agradeço à praxeologia.
(Victória Elsner)
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