Onde estive?
No amor em que queimei-me.
Onde estive?
Na dor da qual apossei-me e,
Mesmo definhando, criei asas
o jardim tornou-se casa.
Por onde andei?
Cresci no espinho latente,
Nos disformes de tua dorsal,
E então ladrilhei por pequenos vãos do teu corpo
Um caminho que quis queimar, incendiar.
Onde estivestes, ovelha perdida?
Perguntas-me sem cessar.
Olhando-te, digo:
Onde estive o céu negro ou carmesim é assim, cruento e
mordaz.
A parte da qual pertenci, eras tu meu mestre, eras tu o meu
amor.
No desfecho em que encontrei-me
vi tuas vestes negras, teus cabelos desgrenhados, tuas mãos
frias e,
Neste mesmo alumbramento, chorei diante de uma escada.
Onde estive?
No castiçal que cai da noite.
Onde estive?
No umbral que leva tua alma para mais perto.
Perguntas-me se desci à sepultura,
Indagas-me se me
engasguei nas lágrimas de meu relento.
Imploras-me por alguma resposta,
Mas por onde remanesci somente o perverso existia.
Disseca-me
Mata-me
Expia-me
Pois eras tu o meu amor perdido.
Eras tu o vento soturno aos pés de meu ouvido.
Interpelas-me amiudadamente a respeito de minhas jornadas,
Mas nada posso dizer a não ser o que já ouvistes.
Declarei-me em prol do amor tétrico
Que carreguei em meu coração coralino,
Deflagrei-me por inteiro,
Juntei meus ossos e, taciturna, fiz minha morada.
Senti a dor de cada flor,
Brotei do céu inteiro minha ojeriza por todo o mal me
causado,
E então renasci na treva.
Ressurgi em dissabor, e do cálice do desagravo bebi.
Bebi pelo obscuro desígnio de meu coração,
Coração este que transborda sede pelo amor não vivido,
Portanto não indagues-me mais.
Não me peças nada além do sangue que ferve
E passa pelas artérias de um calabouço bandoleiro
Ainda existente em teu corpo.
Não me adjures mais nada,
Pois não há o que responder além do que já lhe fora dito.
Onde estou? Prestes a vingar-me.
(Victória Elsner)

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