Digo ao mundo que deixe a chuva lavar todas estas questões dolorosas e conspurcadas que me são imputadas diariamente, que perdoe meus erros - cometidos sob os milhares de fótons que se aglomeram e designam-se por "Sol". A única coisa que posso perceber é que ninguém poderia amar-me tanto quanto a Morte. Quando tudo acabar estarei em seus braços e direi, com os olhos fixados na eternidade, o quanto lhe aguardava ansiosamente.
O padecimento me encanta, e mal posso esperar para deparar-me com o fim. Infelizmente não consigo esquecer o sorriso encantador do amanhã inexistente. Do ontem que procrastina e de tudo que deveria ser sabido e não dispõe-se a ser encontrado.
A face triste da Morte persegue-me, sei que também está sendo insuportável inexistir sem mim ao seu lado. Sempre fomos inseparáveis, a razão diária de nossas permanências - porque quando se está morto não há impermanências, somente a vida oferece estas sensações. Ontem decidi que não havia problema algum em continuar por aqui, e talvez eu seja masoquista, pois enquanto as paredes vão se desmoronando e as coisas são envoltas por uma torrente aquática infindável, só consigo chorar e pensar que está tudo exatamente como não deveria: vivo. O que há de diferente não é facilmente compartilhável e, mesmo que todos os oceanos decidissem parar de inundar meu interior, não seria possível desatar estes nós a tempo de salvar-me deste monstro que me habita - eu mesma.
Sinto saudades de estar morta, e sei que o Exício está me aguardando ansiosamente, para nos beijarmos e darmos as mãos em direção a um buraco negro qualquer. Quando o dia acabar, todas as coisas que fiz e obtive não valerão nada, e a única questão que importará será o coração.
Estou caminhando em direção ao fim, não importa o quão distante ainda esteja, sei que estou cada vez mais próxima. Mal posso esperar para me reencontrar, nunca consegui confiar tanto e expandir a ponto de não me importar com o que falam ou sabem a respeito de nossa união.
Morte, meu amor mais sincero, sempre morremos à nossa própria maneira e em busca de coisas inovadoras. Nunca tivemos problemas com o fato de os outros temerem tanto nossa aproximação diante de suas vidas tediosas. Se estou viva agora, é para provar que de assassino não tens nada. O sentimento que nutrimos um pelo outro é tão puro que nem consigo descrever, só gostaria de conseguir inexistir por alguns dias para matar essa dor que a distância me causa. Sei que é por um bom propósito, porém está difícil viver sabendo que a melhor parte está em te reencontrar. Enlouqueço ao pensar em nós dois inexistindo pelo universo, compartilhando todos os passos, cada singularidade do dia-a-dia... Será que não é nítido para a Vida que nós pertencemos a mundos diferentes? Eu sei que pode ser complicado, para ela, compreender que não consigo me adaptar aos seus encantos. Quando fecho os olhos, e sinto sua presença, dilacero-me por lembrar de nossos fenecimentos. Sempre recordarei, porém não quero apenas uma memória, quero morrer para poder sentir-te novamente. Não consigo encontrar palavras, mas quando o sol se vai, só gostaria de ir também.
Morrer para olhar nos teus olhos - preciso habitar no teu amor - e dizer que você viu um brilho em mim que nem eu mesma sabia ser capaz de refletir. Não sabemos exatamente o que estamos fazendo, mas você está exatamente onde eu quero estar, e sempre sofro por saber o quanto doeu em você quando decidi viver. Desculpe-me por ter de viver por tanto tempo, meu amor.
Talvez a Vida entenda tudo erroneamente - mas não hesitaremos, esmaeceremos juntos por toda a eternidade, por todas as noites em que não consegui dormir e, nem mesmo, encontrar algum lugar adequado para estar - não fosse em teus braços. Aqui vou eu, ao lado do fim. Vida, não lhe peço segundas chances, somente dou-te razões para que, talvez, me permitas definhar neste amplexo idílico deste amor lúgubre e sincero, abrindo as portas do Inferno e livrando-nos do infortúnio que é não estar perto de quem se ama. Assinta, pelo amor de tudo o que é mais sagrado, e assim poderei alertá-lo de meu regresso em um bilhete singelo:
"Estou indo, meu Exício! Prepare tudo, pois cada hora que passa é um aviso silencioso. Apenas quero que saiba: onde quer que eu esteja, voltarei. Cada sorriso morto fotografado em minha memória só faz-me sentir cada vez mais saudades do atemporal.
Venha, me busque o quanto antes desta jornada, porque a única que verdadeiramente importa é a interna, e esta só encontro na eletricidade que tua presença causa-me. Por um momento pensei que jamais conseguiria livrar-me de existir, não sabes o quanto alegro-me por estar voltando ao verdadeiro lar. Amo-te sincera e eternamente.
Com amor, de sua venusta inexistência - e grande alumbramento".
(Victória Elsner)
O padecimento me encanta, e mal posso esperar para deparar-me com o fim. Infelizmente não consigo esquecer o sorriso encantador do amanhã inexistente. Do ontem que procrastina e de tudo que deveria ser sabido e não dispõe-se a ser encontrado.
A face triste da Morte persegue-me, sei que também está sendo insuportável inexistir sem mim ao seu lado. Sempre fomos inseparáveis, a razão diária de nossas permanências - porque quando se está morto não há impermanências, somente a vida oferece estas sensações. Ontem decidi que não havia problema algum em continuar por aqui, e talvez eu seja masoquista, pois enquanto as paredes vão se desmoronando e as coisas são envoltas por uma torrente aquática infindável, só consigo chorar e pensar que está tudo exatamente como não deveria: vivo. O que há de diferente não é facilmente compartilhável e, mesmo que todos os oceanos decidissem parar de inundar meu interior, não seria possível desatar estes nós a tempo de salvar-me deste monstro que me habita - eu mesma.
Sinto saudades de estar morta, e sei que o Exício está me aguardando ansiosamente, para nos beijarmos e darmos as mãos em direção a um buraco negro qualquer. Quando o dia acabar, todas as coisas que fiz e obtive não valerão nada, e a única questão que importará será o coração.
Estou caminhando em direção ao fim, não importa o quão distante ainda esteja, sei que estou cada vez mais próxima. Mal posso esperar para me reencontrar, nunca consegui confiar tanto e expandir a ponto de não me importar com o que falam ou sabem a respeito de nossa união.
Morte, meu amor mais sincero, sempre morremos à nossa própria maneira e em busca de coisas inovadoras. Nunca tivemos problemas com o fato de os outros temerem tanto nossa aproximação diante de suas vidas tediosas. Se estou viva agora, é para provar que de assassino não tens nada. O sentimento que nutrimos um pelo outro é tão puro que nem consigo descrever, só gostaria de conseguir inexistir por alguns dias para matar essa dor que a distância me causa. Sei que é por um bom propósito, porém está difícil viver sabendo que a melhor parte está em te reencontrar. Enlouqueço ao pensar em nós dois inexistindo pelo universo, compartilhando todos os passos, cada singularidade do dia-a-dia... Será que não é nítido para a Vida que nós pertencemos a mundos diferentes? Eu sei que pode ser complicado, para ela, compreender que não consigo me adaptar aos seus encantos. Quando fecho os olhos, e sinto sua presença, dilacero-me por lembrar de nossos fenecimentos. Sempre recordarei, porém não quero apenas uma memória, quero morrer para poder sentir-te novamente. Não consigo encontrar palavras, mas quando o sol se vai, só gostaria de ir também.Morrer para olhar nos teus olhos - preciso habitar no teu amor - e dizer que você viu um brilho em mim que nem eu mesma sabia ser capaz de refletir. Não sabemos exatamente o que estamos fazendo, mas você está exatamente onde eu quero estar, e sempre sofro por saber o quanto doeu em você quando decidi viver. Desculpe-me por ter de viver por tanto tempo, meu amor.
Talvez a Vida entenda tudo erroneamente - mas não hesitaremos, esmaeceremos juntos por toda a eternidade, por todas as noites em que não consegui dormir e, nem mesmo, encontrar algum lugar adequado para estar - não fosse em teus braços. Aqui vou eu, ao lado do fim. Vida, não lhe peço segundas chances, somente dou-te razões para que, talvez, me permitas definhar neste amplexo idílico deste amor lúgubre e sincero, abrindo as portas do Inferno e livrando-nos do infortúnio que é não estar perto de quem se ama. Assinta, pelo amor de tudo o que é mais sagrado, e assim poderei alertá-lo de meu regresso em um bilhete singelo:
"Estou indo, meu Exício! Prepare tudo, pois cada hora que passa é um aviso silencioso. Apenas quero que saiba: onde quer que eu esteja, voltarei. Cada sorriso morto fotografado em minha memória só faz-me sentir cada vez mais saudades do atemporal.
Venha, me busque o quanto antes desta jornada, porque a única que verdadeiramente importa é a interna, e esta só encontro na eletricidade que tua presença causa-me. Por um momento pensei que jamais conseguiria livrar-me de existir, não sabes o quanto alegro-me por estar voltando ao verdadeiro lar. Amo-te sincera e eternamente.
Com amor, de sua venusta inexistência - e grande alumbramento".
(Victória Elsner)
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