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MORRO DO VENTO


"Olá, podemos nos encontrar sexta-feira à noite, que pensas?" - enviei a mensagem, já ansiosa pela resposta. Minha família ainda não sabia de nada a respeito, e aproveitaria que minha mãe ausentar-se-ia neste dia específico, só voltando na noite de domingo. Estávamos trocando mensagens com frequência, porém ainda não havíamos combinado nenhum encontro; ele era o segundo rapaz com o qual me envolvia no campo afetivo, e este seria o marco inicial de algo que eu jamais serei capaz de esquecer por completo. Depois de um relacionamento de tantos anos, meu único intento era viver algo totalmente diferente do meu passado.
"Oi, o que acha de hoje às 20h?" - respondeu-me alguns minutos depois. 
Ao ler, estremeci dos pés à cabeça. Se nos encontrássemos naquele mesmo dia, teria de contar à minha mãe a respeito. A parte preocupante era o fato de que só faltava 1h30min. para as 20h, será que ela entenderia? Permitiria?
"Não há possibilidade alguma para amanhã?" - indaguei em retorno. 
"Realmente não, somente hoje, ou só conseguiremos nos ver semana que vem." - alegou ele. 
Entre hoje e semana que vem já não fazia tanta diferença, afinal, em ambos os casos teria de contar à minha mãe, e confesso, estava quase sufocando de tanta vontade de ir ao encontro dele pela primeira vez. Quer saber? Dane-se, contarei.  
"Certo, combinado." - enviei. 
"Ok, onde nos encontraremos?"
"No cemitério ao lado da capela, sabe onde é?" 
"Cemitério? Você é realmente de outro planeta!!! Acho que sei sim." 
"Está com medo? Não acredito que desistirá agora!" – brinquei.
"Medo, eu? Jamais! 20h, no cemitério." – confirmou.
"Vou me arrumar, beijos."
"Certo, vou aspirar o carro e me arrumar, até daqui a pouco. Beijos."
Olhei as horas, deixei o celular no sofá e saí correndo em busca de minha progenitora. Precisava contar a ela sobre a existência deste rapaz, e avisá-la que tinha pouco mais de uma hora para aprontar-me. Eu não sabia como abordar, fiz mil e um rodeios até conseguir dizer o que estava prestes a acontecer e, para minha surpresa, ela não fez o escândalo que imaginei que faria - meu maior medo era ter de desmarcar o encontro. Porém, para compensar, me pediu a ficha criminal do mesmo. "Mãe, já lhe mostrei a foto dele, redes sociais, nome completo e número de celular para o caso de qualquer imprevisto.Já está ótimo, pare com isso! Histórico policial já é exagero. Calma! não é um completo estranho." - ela estava prestes a abrir a boca novamente para falar, porém fui mais rápida -  "Eu já disse que não sei o RG ou CPF dele, e não vou perguntar isso!!!" - falei rindo de nervoso. Ela riu também, provavelmente pelo mesmo motivo que eu. 
 Fui tomar banho e vesti minhas roupas pretas de sempre, uma sandália baixa e passei uma máscara para pestanas. Justo nesse dia havia esquecido meu estojo de maquiagem em algum lugar aleatório da Terra, mas tudo bem - estava tudo certo com minha aparência. Não me sentia impelida a parecer perfeita. Faltavam somente 10 minutos para o horário combinado, minha mãe olhou em meus olhos e sorriu. 
"Você está linda, mas pra que esse cardigã?" - disse enquanto ajeitava, insistentemente, as mangas tão escuras quanto meus olhos e cabelos. 
 Já esperava por este comentário, o mesmo era de praxe, mas melhor ouvi-lo do que ser surda. 
"Tem certeza que estou adequada? Bom, agora não há que se falar em mudar de ideia." 
"Você está ótima, filha! te acompanharei até lá." - afirmou sorrindo, porém era perceptível o nervosismo em sua face, até tentei demovê-la, mas percebi que seria uma batalha perdida. Já eram 20h  havia alguns poucos minutos, logo recebi a mensagem do rapaz, avisando-me estar a caminho. O cemitério era próximo de minha localização, minha progenitora desaprovou totalmente a escolha do local, mas também confessou saber que isso realmente era do meu feitio. Havia uma escadaria e um banco em frente à entrada do mesmo, e era ali que aguardávamos. Em seguida me despedi de minha mãe, o que eu não sabia é que ela se faria recôndita a fim de anotar a placa do carro deste quidam com qual me encontrei –  soube disso ao retornar para casa, no dia seguinte ao encontro, para ser mais exata (o que foi bem estranho, tendo em vista tratar-se de um sonho). 
O carro preto estacionou em frente à escadaria, e então o jovem alto e esguio caminhou em minha direção, dando a volta pela rampa lateral - o suspense se fez presente neste momento, e meu coração se atribulou por alguns segundos. Assim que nossos olhares se encontraram, só tive a certeza de que aquela noite seria muito mais do que um breve encontro. Era como se estivéssemos nos reconhecendo, depois de uma longa jornada distantes um do outro. Uma energia mística. Excêntrica. Sorri instantaneamente, enquanto ele sentava ao meu lado e aproximava-se para um breve "estalo ao ar" -  como costumo cognominar o típico "beijo na bochecha", que na verdade é nada mais que um estalo labial ao vento. 
"Oi, tudo bem?" - sorri, avaliando sua expressão contente. 
"Tudo – disse sorridente - então aqui é o tal cemitério!" - virou-se em direção ao mesmo. 
"Sim, quer entrar?" – questionei brincalhona (nossa, nunca imaginei que fosse me sentir tão à vontade). 
"Não, não. Capaz! estou tranquilo por aqui." – disse entre sorrisos amenos.
"Eu sabia que você iria temer a possibilidade de entrar." - aleguei de modo inquisitivo, mas não consegui segurar o lacônico sorriso. 
"Ah, não! Vamos entrar então, agora faço questão só para te provar que não tenho medo de cemitérios, nem mesmo à noite! Não é um local que costumo frequentar, obviamente, mas isso não significa que tenho medo de fantasmas." - disse levantando-se. 
Adentramos a pequena necrópole. O silêncio se instalou por uns instantes. 
"O que te faz gostar tanto daqui?" - interpelou-me de modo sincero. 
"Aqui consigo fechar os olhos e ouvir os vazios do mundo. Consigo pensar, refletir sobre tudo e também acredito que é a forma que os seres humanos encontraram de materializar a eternidade. Um meio de lidar com a impermanência que é viver. Admiro isso, e cada lápide guarda o valor de todas as dores existentes neste planeta. Aqui estão os retalhos da imortalidade. É uma expressão rudimentar, por isso muitos fazem, porém poucos são os apreciadores da morte – olhei ao derredor e respirei fundo, sentindo o frescor daquele mundo à parte - Nossa, acho que falei demais, desculpe!"- sorri amarelo.
"Ah, é verdade, as famílias escrevem homenagens e tudo! Entendi agora os seus motivos, não precisa se desculpar, é legal entender como cada pessoa tem um jeito de ver as coisas. - olhou ao redor, olhou para mim e eu nunca me senti tão confortável em toda a minha vida. - Vamos?" – falou indicando o arco de arbustos por onde entramos.
"Como assim?" - indaguei confusa.
 "Quero que conheça um lugar, mas é surpresa, não lhe direi até estarmos lá." - falou com um sorriso tímido, amedrontado com a possibilidade de eu recusar sua programação misteriosa. Confesso ter me questionado internamente, pois havia dito à minha mãe que ficaríamos pelas redondezas, por fim, aceitei, sentindo-me totalmente tresloucada, afinal, jamais havíamos conversado pessoalmente antes. Este era nosso primeiro encontro, apesar de já termos nos visto algumas vezes - pelo fato de termos contato astral em outros tempos, parecia termos décadas de convivência. Eu sentia como se estivéssemos a nível físico, mesmo que, ao mesmo tempo, soubesse que não estávamos.
"Então, pode me dar alguma dica a respeito de onde está a levar-me?" - perguntei.
 "Só posso dizer que não fica exatamente nesta cidade, tem muitas árvores e é bem alto. Há um tronco caído, onde podemos sentar para admirar a paisagem e conversar. Não há muita iluminação, é muito silencioso e acho que você vai gostar. Eu costumava ir com meu melhor amigo neste lugar quando queríamos espairecer". - explicou-me enquanto dirigia por uma estrada de chão batido. 
Ao ouvir o que o rapaz dizia-me pensei saber onde estávamos indo, pois havia estado em local semelhante outrora, porém percebi tratar-se de um equívoco. Apesar de todo o contexto, confiei em seu olhar sereno e, até mesmo, desencanado. Ele tinha um jeito muito intrigante de conduzir as coisas. 
 "Então, como devo pronunciar seu nome?" – questionou focado na pista. 
 "Como assim?" - nesse momento notei estar totalmente perdida, porém justifico dizendo que até minhas mãos tremulavam. Parecia uma distraída, e não uma moça em sua real condição cognitiva. 
 "Bom, seu nome é diferente! Não sei se devo falar como se escreve." - olhou-me rapidamente, de soslaio, e sorriu de uma forma tão única que até pensei ter me transformado em um sorvete derretido. Ri sem jeito e senti-me totalmente fora de esquadro, mas de modo magnânimo. Estava flutuando no céu, e era como se ele fosse uma nuvem extremamente confortável, densa na medida certa para suportar meu peso e amoldar-se a mim. "Ah, você diz isso por conta da letra c? Se sim, adianto que a mesma deve ser pronunciada. Além de ser correto, eu prefiro, pois senão qual a utilidade? Letras não são enfeites, penso que se está ali deve ser pronunciada, senão é um desfavor. Qual o sentido de pôr letras que só servem para dar trabalho ao soletrar? Não tenho paciência para essas coisas,como pôr “h” em palavras desnecessariamente, mas sei que existe gente para tudo no mundo. Claro que meu nome também é estranho por outros motivos, porém trata-se de uma derivação do latim, mais especificamente do verbo vincere, e sua transcrição fonética dista um tanto da forma literal,sendo / vik.twaʁ/." – ao finalizar soletrando cada letra que compunha o modo fonético, penso ter me empolgado de modo exacerbado para um simples questionamento sobre meu próprio nome... fazer o quê?
 Ele assentiu, sorrindo de lado, e acho que até se perdeu diante de tanta explicação para algo tão apoucado. - meu coração tropeçou uma batida e quase saiu pela boca. O que ele me causou, por dentro, ao gargalhar deveria ser citado no código penal como ato ilícito, culposo e inafiançável. - "Hum, então está bem, Victoire!" - disse fazendo graça, falando exatamente como se leria no modo instintivo de sua língua mãe, o que fazia com que meu nome realmente parecesse ridículo. Em seguida falou corretamente, a fim de retratar-se. Suas hipérboles para um sotaque francês mais acentuado tornaram o momento ainda mais hilário. Já comentei sobre aquele olhar descomunalmente distraído que deixa a boca entreaberta se misturando com um ar despretensioso que, na verdade, está repleto de ambições? É, ele realmente sabia fazer isso muito bem, imagine se nos beijássemos? Não consigo nem lidar com todos os fogos de artifício que explodiam no meu interior agora, só por conta destes olhos sorrindo em minha direção, quem dirá com a possibilidade remota de oscular aqueles lábios –“minha nossa, nossan-o-s-s-a” – pensei, e o ar tornou-se escasso em uma questão de segundos, que loucura!
 Conversamos sobre o quanto a vida pode surpreender, e também rimos muito pelo fato de eu ter alegado sempre parecer um monstro trevoso. Uma obscura com seriedade no olhar direcionado ao teto. A incansável argumentadora chata de filosofia; a garota entediada, que revira os olhos porque se acha incrível... Estávamos subindo um morro, numa estradinha íngreme e desalumiada. É, eu realmente confiei cegamente em sua índole. Gargalhei e pensei no quanto as pessoas me julgavam sem eu, nem mesmo, ter a chance de me introduzir em suas vidas. "Não! - minha voz oscilava por conta do riso desenfreado, enquanto explicava-me a respeito de uma anedota qualquer de meu dia-a-dia. - Em nenhum momento eu discordava do professor, acho que ninguém prestava atenção em meus comentários, pois na verdade eu somente validava mais ainda aquilo que o mesmo dizia. Dava exemplos mais específicos e enriquecia o diálogo através de outros dados axiomáticos" - disse enquanto admirava a escuridão na qual nos encontrávamos. Não senti medo, na verdade estava totalmente ansiosa para chegar. Sua companhia, mesmo em tão pouco tempo, me era sinônimo de proteção. Tinha cada vez mais certeza de que amaria aquele lugar, pois ele eu já amava há muito. Poderia acontecer um apocalipse, não me importaria nem um pouco em ver o mundo inteiro sendo destruído aos poucos dali.
 Morro do Vento, esse era o nome de onde estávamos estacionados. Somente os faróis do carro irradiavam, permitindo-nos avistar algumas ovelhas, que logo se assustaram. Um poste trazia alguma ínfima iluminação, e havia uma bicicleta abaixo dele, provavelmente alguém zelava, à distância, pelas ovelhas. Estava realmente muito difícil lidar com a vontade enorme que senti de morar ali. Sentindo a brisa gélida em meu rosto ao abrir a porta e levantar-me do banco, agradeci cada segundo por ter aceitado o convite cheio de mistérios deste belo homem materializado em minha frente. "Nossa! Perdi as palavras, realmente não conhecia essa paisagem. De longe uma das mais belas que já pude avistar. Uau!" - aleguei enquanto nos acomodávamos no tronco caído, situado bem na beirada do morro, permitindo uma ampla visualização da cidade. Ele estava de pé, com a lanterna do celular ligada para enxergar melhor o tronco e ter certeza de que não haviam formigas ali - eu já havia me sentado, e não entendia o motivo de tamanha inquietação. "Como ele é alto!" - pensei e, neste mesmo momento, nossos olhares se encontraram e automaticamente achei que ele pudesse ter lido minha mente. Será que ele consegue ouvir meus pensamentos? ah, pelo amor de todas as Deusas, alguma piedosa alma da Natureza, por obséquio, confirme-me a total impossibilidade disso ocorrer, pois já pensei muitas coisas totalmente desnecessárias de serem sabidas. Aquele silêncio nos ensurdeceu por algum tempo, mas não havia desconforto, somente uma forte vontade de compartilhar qualquer coisa, inclusive a taciturnidade. "Eu tinha certeza que você iria gostar daqui, é realmente lindo. - olhou, apontou para o céu e prosseguiu - E as estrelas ficam muito mais aparentes, você notou?" - Assenti somente por uma razão: eu realmente queria notar qualquer outra coisa que não fosse o fato de ele estar pisando no meu pé desde que sentou-se. Não conseguia encontrar um modo de avisá-lo a respeito disso sem criar constrangimentos, então simplesmente engoli seco e me mantive ali, com o pé doendo e intacto, sob o dele. Avistei uma construção aberta, a mesma tinha vários andares, era feita de madeira. Um tipo de mirante - bem rústico, inclusive. Pensei ser ideal pedir que fossemos até lá para ter uma visão mais ampla ainda daquele lugar escuro e silencioso - qualquer um diria ser o cenário perfeito para o mais novo massacre da serra elétrica. Só precisava aguardar aquela cena slow motion do filme "X-men Days of Future" que ele decidiu mostrar-me acabar, para então, perguntar o que ele achava de ir até lá. Enquanto isso só conseguia repetir mentalmente: "vai ficar tudo bem, meu pé não irá necrosar (assim espero); nossa, essa cena é realmente formidável!; será que ele segurará minha mão em algum momento? bem que poderíamos nos abraçar!; Uau, ele é muito diferente, bonito, autêntico e esse sotaque de outro mundo é realmente sedutor; Ai, meu pé, que inferno!". 
 "Você devia ter me xingado por estar pisando no seu pé durante todo esse tempo que estivemos sentados, que vergonha estou sentindo agora!" - dizia ele enquanto caminhávamos em direção ao mirante. A grama era alta e só enxergávamos por conta da lanterna, senão estaríamos realmente em apuros para chegar até lá. Ele foi à frente, porém não mantinha a luz fixada no caminho, o que me fez quase estatelar na grama escorregadia em que pisávamos. É, realmente faltava-lhe cavalheirismo em certos quesitos. "Ei, poderia desacelerar seus passos? não estou conseguindo enxergar direito, quase escorreguei aqui." - alertei. Ele parou, taciturno, virou-se para mim e aguardou minha aproximação. Parecia estar acanhado. "Nossa, primeiro seu pé, agora isso. Desculpe-me, estou me comportando horrivelmente, pode dizer ok? Não se intimide." - disse escorado no corrimão de madeira, indicando-me passagem. Aceitei sua gentileza e, subindo os primeiros degraus respondi: "Não seria indelicada a tal ponto". - continuei em direção ao topo. Meu objetivo era chegar ao último andar. O silêncio tornou-se desconfortável pela primeira vez naquela noite. Ao sentarmos no chão de madeira, com nossas pernas para o lado de fora da balaustrada, só consegui agradecer por estar ali, sob um manto estrelado tão vivaz quanto o pulsar de meu cardíaco. Estávamos lado a lado, sem nada a dizer, e aquilo parecia tão ideal que nem cogitei abrir a boca. Só sabia olhar para o céu e pensar na imensidão de constelações que o mesmo acolhia com tanto zelo. "Você realmente é encantada pelo Universo, não é?- suas mãos tamborilavam sobre um das madeiras que constituíam a balaustrada - Dá para perceber que sai de órbita, e parece que nada mais existe ao seu redor." – seus olhos não se desviaram do horizonte. "Nossa, desculpe! Realmente perco a noção do tempo quando estou em lugares assim.- afirmei sem jeito. - Sinto como se tudo estivesse conectado ao meu ser, e então ouço as estrelas conversarem comigo sobre a beleza que há em continuar refletindo luz mesmo quando mortas. As constelações são cheias de histórias para contar, minha favorita é a de Iparian pelo fato de ter 7 estrelas principais, e eu amo o número 7. Você percebeu aquela estrela ali?" - apontei com o indicador em direção ao ponto de luz, ao mesmo tempo em que pensava que deveria falar menos. Sou uma tagarela quando se tratam dos meus hiperfocos. Ele acompanhou minha indicação, ao mesmo tempo em que aproveitara para aproximar-se discretamente, encostando sua perna ao lado da minha de modo desinteressado, seu rosto procurava a estrela e ao mesmo tempo parecia necessitar de uma aproximação, até que... "Ah, sim, aquela ali? Achei." - disse-me, e pude sentir o quão próximos estávamos, porém não ao ponto de tocar a derme. Senti-me nervosa com a possibilidade de abraçarmo-nos, ou de segurar suas mãos. Percebi que ainda estava apontando para o céu sem necessidade alguma, automaticamente fui recolhendo a mão para recostar em meu colo novamente, porém sou surpreendida com seu toque repentino, seguido de "Sua mão é um convite pra eu segurar? Deixe-me ver aqui se você tem mal de Parkinson mesmo, como alegou uma vez em nossas conversas!" - Seus olhos estavam em outra direção enquanto eu gargalhava sem parar, e ele também ria sem jeito. Tirei minha mão rapidamente, e perguntei se era mesmo dessa forma que ele portar-se-ia. Se era mesmo essa desculpa esfarrapada que utilizaria para segurar minha mão, e que, como ele podia perceber, eu realmente poderia sofrer com este mal, e era uma indelicadeza de sua parte agir de tal modo. O mesmo me deixou boba de tanta vergonha ao dizer "Agora que já segurei, não há muito o que fazer, é minha. Não devolverei." - tomando novamente minha mão para si e acariciando-a levemente, de forma extremamente desengonçada. Foi a situação mais hilária que já vivi. Devo acrescentar: suas mãos eram bonitas e macias, proporcionais em relação ao seu tamanho, ou seja, as minhas se perdiam na imensidão de suas palmas. Ao dar-me por conta, ele estava recostado em um dos pilares de madeira enquanto me ajeitava em seu peito e seus braços me rodeavam de modo aconchegante. Sentia-me minúscula em seu amplexo, parecia que sempre estive ali. Era tão familiar, tão fácil e confortável... Nem uma viagem para 1830 me faria cogitar a possibilidade de não me permitir viver aquele momento. As horas deixaram de existir, a não ser por conta de uma ligação inesperada. A partir de então elas não somente ressuscitaram como também estavam atrasadíssimas para um evento de extrema relevância: meu retorno para casa. Nem preciso dizer o óbvio, mas direi assim mesmo, por precaução. Minha mãe ligava-me, e quando atendi, a mesma estava tresloucada em seu próprio furor, questionando meu paradeiro e gritando a respeito de minha total insânia. Esclarecendo a quebra de sua confiança em relação à minha palavra e ordenando que voltasse imediatamente para casa, pois já haviam se passado alguns minutos da meia-noite, que era o horário de retorno estipulado. Só conseguia assentir com pequenas palavras de afirmação, e pedir que se tranquilizasse - obviamente eu sabia que ela não me ouviria. Confirmei estar a caminho e finalizei a chamada de voz logo após seu consentimento. Nem conseguia pensar em nada congruente. Ele estava ao meu lado, portanto nem considerei a possibilidade de não ter ouvido tudo. Não me senti envergonhada,  falta-me paciência para inibir-me por tão pouco. Sorri para ele e disse: "Como pode notar, minha mãe está desvairada de preocupação e temos de retornar o mais rápido possível!" 
"Sério mesmo? Ela está tão preocupada assim?" - falou, um pouco confuso com a situação. 
"É como já havia lhe dito uma vez: você é o segundo rapaz que saio em toda a minha vida, literalmente!, então há uma certa superproteção familiar." - relembrava-o enquanto nos levantávamos e, a passos ligeiros, seguíamos em direção às escadas. 
"Cert..." 
(o celular toca novamente).
"Oi mãe!"
"Já está chegando? Onde vocês estão?" 
"Calma, estamos saindo daqui. Entrando no carro" 
"Ok, depois conversaremos sobre essa situação. Te quero aqui o mais rápido possível." - disse raivosa.
"Tranquilo, se acalme, estamos a caminho!" -  avisei, finalizando a ligação. 
Olhei para ele e nem sei que tipo de emoção sentia, apressamos o passo, entramos no carro e, apesar de tudo, a leveza instalou-se novamente de modo extremamente rápido. Ele ligou o rádio e descreveu as músicas como: eletrônica, em seguida algo dos anos 80, 90 e logo mais um provável “hit do momento”. Nossos gostos musicais tinham lá suas divergências, contudo, havia algum ponto de encontro em certas vertentes. Conversávamos sobre as mais diversas situações, gargalhávamos de forma aleatória. O mesmo alegou estar começando a praticar esportes e se alimentar de forma mais saudável, fazer musculação, porém não para ficar “bombado”, e sim somente para estar em dia com seu físico. Encorajei-o a prosseguir com seu intento. Perdi o fôlego inúmeras vezes, de tanto aprazer-me diante dos variados relatos que o mesmo fazia questão de compartilhar. "Uma vez estávamos eu e um amigo em uma festa, e aconteceram algumas situações muito estranhas, que nos faziam questionar muito a sanidade mental das pessoas envolvidas. No fim das contas todas as vezes em que acontecem coisas fora do normal, em qualquer momento de nossas vidas, costumamos olhar um para outro e dizer: "ta loucona?" , e isso serve realmente para qualquer ocasião estranha, é um meme, já ouviu falar nisso?." - contava-me enquanto dirigia. O que o mesmo não esperava era meu ataque de risos incontrolável após ouvir seu informes. Realmente não consegui me conter, cheguei a perder a razão. A barriga doeu por conta do excesso. Só consegui parar no momento em que vimos um bichinho na pista e quase chorei com medo de atropelarmos um inocente, porém conseguiu-se desviar a tempo. Não estávamos em alta velocidade, era óbvio que não o atropelaríamos, mas na minha cabeça quase vi aquele animalzinho perdendo sua vida. Por um momento percebi a tensão no olhar daquele rapaz, acho que nunca havia presenciado algo assim. "Ele – engoli seco - morreu?" - questionei virando-me para trás, na esperança de ver algum rastro de certeza. "Você acha mesmo que eu o mataria? Claro que não, fique tranquila" - afirmou, olhando em meus olhos por alguns segundos, e logo em seguida focando na pista novamente. "Nossa, por um momento realmente pensei que ele poderia ser atropelado. Não me perdoaria caso isso ocorresse." - falei. "TÁ LOUCONA?" - gritou, brincalhão. É, realmente não conseguia me sentir mais em casa do que naquele momento. Perdi o fôlego, implorando para que ele parasse de me fazer tresloucar entre hilaridades. "Vou lhe mostrar onde eu trabalho; ah, eu que fiz aquela decoração natalina que está ali no alto daquele estabelecimento." - apontou em direção do objeto elétrico enorme em formato de estrela. "Nossa, que demais! Admiro muito seu empenho, o resultado traz muita beleza à cidade!" - respondi. 
"É, é legal, mas sei lá, não sinto muita emoção com isso. Faço porque é meu trabalho, não me traz satisfação pessoal".
"Entendo seu ponto, porém continuo achando incrível. Você já levou choques muito fortes?"
"Já levei alguns de tremer os braços, acho que umas duas vezes ao todo, mas ser eletricista é isso. Temos que estar preparados e ter certeza do que estamos executando, para correr o mínimo de riscos." - disse calmamente enquanto virava as ruas necessárias. - "Por falar nisso, você nunca me perguntou sobre meu trabalho, por quê?"
"Eu deveria?" - indaguei.
"Ah, sei lá, né! Normalmente as pessoas fazem esse tipo de pergunta quando estão se conhecendo."
"Nunca fiz questão de agir de acordo com a normalidade." - comuniquei enquanto sorria de forma amena. Ele me olhou e abriu um sorriso, nem se fez necessário o uso de palavras. Apontou-me ligeiramente o local onde trabalhava e seguimos rumo ao próximo destino. Emendávamos assuntos totalmente fora de contexto, ríamos de besteira e, do nada, estávamos falando sobre o futuro da humanidade segundo os preceitos da Matrix, valor energético das letras, acentos e toda ciência por trás da cabala numerológica. Os judeus sempre fizeram uso da mesma, e muitos afirmam ser o motivo pelo qual são tão abundantes; Seríamos nós meros hologramas mentais?; O mundo deveria acabar com uma invasão alienígena?; A história dois greys é de suma importância para uma melhor compreensão das teorias conspiratórias que me fazem perder o sono, sim ou claro?; e, por fim: ta loucona?
 Já faziam algumas horas que estávamos estacionados em frente à casa de minha tia. - onde minha mãe se encontrava extremamente irritada por eu não ter entrado ainda, porém já havia desistido de tentar. - Eu simplesmente não queria ir embora, então recostei a cabeça no banco do carro, virada de frente para ele para que continuássemos a falar sobre qualquer coisa. Já eram quase 4h da madrugada (mas parecia tão pouco tempo). Ele falou algo que não entendi muito bem, e quando percebi, seus lábios devoraram os meus em um beijo intenso, cheio de promessas. A química era inegável entre nós, e meu único pensamento era sobre o quanto ele era verdadeiramente distinto em seu modo de portar-se. Um olhar repleto por entrelinhas. Perdi o compasso da respiração, enquanto sua boca passeava na minha. Não consigo descrever de forma precisa o quanto estávamos aficionados naquele momento. Era mágico, literalmente. Naquele dia posso afirmar que passei a crer piamente no poder da fascinação mística. Nas pausas entre um beijo e outro, aqueles olhos esverdeados penetraram profundamente nos meus, e ouso dizer que desvendaram até o que eu mesma desconheço a meu próprio respeito. Leves selinhos eram traçados ao mesmo tempo em que os beijos tomavam proporções mais voluptuosas, e então se acalmavam novamente, e dedilhavam nossas faces como preces ternas e amorosamente compassivas. 
"Nossa, você respira igual um gatinho!" - disse-me baixinho enquanto acariciava meu rosto e, em seguida, colocava algumas mechas de meus cabelos para trás de minha orelha. 
"Oi? Hum?" - balbuciei de olhos cerrados, ébria.
Abri os olhos lentamente, e encontrei aquele sorriso estonteante bem pertinho de mim.
"Shhhhhh, você precisa acordar." - sussurrou, selando seus lábios nos meus enquanto acariciava meus cabelos ternamente.
"Tá bom." - respondi baixinho ao mesmo tempo em que trazia seu rosto para perto. 
A despedida fora incansavelmente longa, cheia de desvios de percurso e ósculos langorosos. 
 Antes de entregar-me ao embalo de minha própria existência em matéria,não sei exatamente como, porém escrevi e enviei um breve recado, na esperança de eternizar nosso encontro: 

"Sabe o que é? O Sonho passa tão rápido que até parece que abrir os olhos é uma atitude ingrata. Acordar parece um descaso com todo o resto. Você está aí, parado, com seu sorriso de lado, enquanto te olho de soslaio. Minha garganta seca e bochechas coradas de vergonha. Nossos momentos passaram mais ligeiros que tudo, há alguns minutos te vi através destes meus olhos escuros e sorri, trêmula para dizer um oi. Você e toda essa sua personalidade me causaram aprazimento colossal. E agora? desaprendo o básico quando ao seu lado; não sei se estou sã. Diga-me, por obséquio, o que é isso? Já não sei de mim. Só percebo, sem compreender ao certo, o acelerar tresloucado do coração que bate em meu peito ao pensar em sua existência.
Srta. Assels."

Quando oficialmente distanciava-me do mundo irreal, tinha absoluta certeza de que não seria fácil esquecer aquela noite, que até hoje não sei se vivi, ou se não passara de uma fantasia. E, mesmo tanto tempo depois, afirmo: talvez nunca seja. Existem momentos que exigem vidas, outros nem mesmo a morte consegue extinguir da alma.

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