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DESNECESSÁRIO

Sim, escrever sobre o amor é desnecessário.
Eu admito que perco tempo - hora, minuto, milésimo e segundo.
O poeta perde amor.
Perde o gosto de sofrer, porque o sofrimento fica naquele papel riscado.

Papel que dói na cor.
Papel que dói no sabor das letras - digeridas no ritual sagrado da leitura.
Papel que chora cicatrizes conjugadas em linhas tortas que expressam tormenta.

Você precisa entender que essa escolha não depende só de mim
Depende dos meus problemas também
Depende dessa minha vida, que não me dá nenhuma trégua
E é por isso que eu não quero mais te ver

Você consegue me esquecer?
As lágrimas compassadas por emoções são tão profundas quanto os devaneios sob a varanda
(de frente para um oceano do qual nem se sabe a total profundidade)
Você vai me amar se eu te contar que meus detalhes são maiores do que você, ou eu, imaginamos?
E se eu te disser que, qualquer dia desses, vou sentir saudades de algo indefinido?

Sinto a sua respiração ao meu lado
Necessito de milhares de existências profundas para me recuperar desse amor.
E de uma poção do esquecimento para conseguir aceitar o fato de que qualquer dia desses,
novamente
posso perder você de vista de vez,
ouvindo notícias suas como se fosse um estranho qualquer

Sei que as coisas ficam complicadas a partir do momento em que não abrimos mão de nós mesmos
Mas o que eu mais queria nesse momento
Era poder olhar nos seus olhos.

Não, não quero me pronunciar e correr o risco de errar nas palavras.
Eu só quero virar uma esquina e, fortuitamente, encontrar-me no mais profundo de suas pupilas
Pois o que mais ouço é que elas dizem mais do que qualquer conjugação.


(Victória Elsner)

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