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MÃE


 Já tentei falar sobre meu dia, sobre meus pensamentos, sobre clichês cansativos e até mesmo sobre desistir da vida de escritora. Já apaguei tantas ideias, esboços, nuances de algo que poderia ficar bom (se eu tivesse lido daqui uma semana), que o motivo para não conseguir escrever está começando a tornar-se ininteligível. Isso é torturante. O tempo continua passando, minhas mãos pinicam meu cérebro e eu não entendo o motivo de não imaginar nada. Talvez um ano de muitas reviravoltas como este tenha uma certa falha de compreensão com as limitações humanas, e é nessas horas que o papel do escritor já passa a não fazer tanto sentido: quando a vida faz essas lacunas enormes e cheias de contratempos inimagináveis. Eu sei que ainda estamos desenvolvendo, não aprendemos tudo e a fase de ajuste é estressante e decepcionante muitas vezes. A experiência em dividir o mesmo teto é algo bem esquisito, porque muitas vezes as diferenças de criação se chocam como placas tectônicas e então geram um terremoto digno do maior nível na escala Richter - Nós nos amamos, nos desentendemos, nos acostumamos com as limitações uma da outra e isso não é algo ruim, isso se chama convivência. Eu quero melhorar para você, você quer melhorar para mim e, com isso, uma ponte vai se construindo até fazer ligação direta de coração para coração. Esta carta está sedo escrita da forma mais realista possível, e eu sei que talvez não vá ser a sua preferida, talvez você já não tenha tantas expectativas e eu seja muito negativa a respeito do amor. Nós estamos juntas, mas às vezes parece que não tanto. Nós estamos no pico do ódio, mas às vezes parece que explodimos de alegria em estar na presença uma da outra e em compartilhar as coisas mínimas do dia-a-dia. Tudo é uma questão de humor, de momento, de atitude, de erros e acertos... A ansiedade e o medo de as coisas não darem certo em nossas novas profissões está sendo o pesadelo desta temporada e isso prejudica a relação, mas sei que não quer dizer que falta amor.  Não quer dizer que falta amor porque eu não imagino outra pessoa e não cogito a ideia de que poderia ter encontrado alguém diferente. Não falta amor porque o ato de compartir as aflições é muito mais do que se imagina: é o reconhecimento de que o coração do outro também é um lar; de que o coração do outro pode ser o seu ninho nas tempestades. O céu está em olhar olhar para você e reconhecer que a vida é assim mesmo. A vida recompensa como pode, mas os nossos reflexos são frutos daquilo que deixamos para trás ao invés de resolver. Tenho que admitir: sou muito feliz em estar vivendo tudo isso, e que a nossa casa é tudo o que eu sempre sonhei, repleta de cumplicidade e alma. Quando estamos nela somos felizes olhando nossos filmes e comendo pipoca, e eu consigo me imaginar sentindo saudades disso daqui um tempo. Sentindo falta de brigar pela bagunça. Sou muito grata pelas pessoas que estão ao nosso redor para nos ajudar como podem, e sequer um dia praguejei o fato de ter saído de minha solitude para viver uma vida com você. Nunca repensei na ideia e nem mesmo considerei voltar, porque eu sinto que foi a melhor atitude que já tomei na vida! Eu amo muito tudo o que temos, tudo o que somos e sei que vamos ser cada dia melhores juntas.
Amo-te, mãe.

(Victória Elsner)

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