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NINGUÉM

 CENA I 


Ando pelas ruas e sinto os olhares de cobiça. Muitos são os homens que desejam meu corpo, e eu sei disso. Eu sinto prazer nisso e simplesmente me permito ser cortejada. Eles sorriem com malícia e eu simplesmente me faço de desentendida. Sinto olhos beijarem minha extensão corporal enquanto caminho em direção ao meu trabalho, que é dar prazer. Sim, sou uma meretriz. Realizo as fantasias mais tresloucadas e recebo dinheiro em troca, para resumir bem. Também faço serviços básicos e de curta duração, obviamente. Eu poderia dizer que sou uma vítima da vida e alegar que sofro por ser uma hetaira, porém seria uma mentira. A questão mais expressiva em minha forma de ver a vida é que, no que tange o coito, não o encaro como fonte de realização romântica. O vejo como um jogo, e confesso saber jogar muito bem. Quando você entende os mecanismos do prazer, simplesmente não há mais muitos segredos a serem escondidos. Você simplesmente sabe o que fazer e como fazer. Muitos foram os que tentaram me tirar dessa vida, mas eles jamais seriam capazes de compreender que o mundo é um lugar muito meu. Não idealizo uma vida a dois porque sei que não seria capaz de me doar tanto. Existem pedaços de mim em muitos homens, e cada um teve a recompensa de acordo com aquilo que cativou. Não há glamour, é sexo. Alguns são indômitos, outros são mais tímidos e retraídos , acho interessante perceber a personalidade de cada um e analisar os efeitos que me causam. Não sou um robô, sinto tudo profundamente. Às vezes eu percebo que há uma certa barreira moral, notando isso já sei que a pessoa leva uma vida dupla e se culpa por isso. Não que os que não têm barreiras morais também não levem, só não sentem remorso. Muitas vezes o homem simplesmente não quer ter ligação emocional enquanto se relaciona sexualmente. Ele quer se desconectar de qualquer compromisso, inclusive com o de ser delicado e ter manejo com o que vai falar, fazer. Não sei se consigo ser clara, mas é simplesmente uma vontade de extravasar. Podemos compreender isso como uma forma de objetificação. Faz parte do processo... Existem os que fazem de tudo para me dar prazer, mas confesso serem minoria. Por que estou falando tudo isso? Nem eu sei, já estou tão acostumada a divagar sobre esses assuntos que já aparecem naturalmente os pensamentos. Não consigo evitar. Antes eu trabalhava pelas ruas ou então em casas noturnas, porém após muitos abusos adquiri minha independência e hoje em dia tenho meu próprio espaço para efetuar minhas diligências. 

 Abro meu aplicativo de mensagens. 


“Oi, quanto custa uma noite inteira com você?”


Respondi com as especificações necessárias e uma noite foi reservada em nome de Ninguém. Sim, fiquei bem receosa com essa nomenclatura, porém o rapaz disse que pagaria adiantado para que não houvesse nenhuma dúvida a respeito da veracidade do agendamento. Eu assenti e disse que só consideraria o horário dele quando recebesse a notificação do pagamento. Combinações feitas, agora era somente esperar. 

 Respondi outras mensagens e atendi alguns clientes. O dia estava intenso, e eu confesso que estava com medo de não dar conta do serviço à noite. O tal do Ninguém não levou nem 5 minutos para enviar o valor total da diligência. Fiquei surpresa, ele realmente não estava blefando. Parece que não é tão “ninguém” assim, afinal… o dinheiro já estava na minha conta. 



CENA II


Um dos grandes segredos para um péssimo padrão de comportamento é seguir os meus passos. Não existe nada demais, a grande sacada da vida foi me mostrar que, além de tudo, posso ser um desserviço à natureza por conta de tanta inutilidade acoplada. Já passei por muitos profissionais, todos dizem que meu problema é estritamente psicológico. Autoestima. Mas, sendo muito honesto, o grande causador de meus males chegou quando eu notei minha total falta de aptidões e talentos. Quando percebi que não havia nada de especial em mim, e, inclusive, que minha existência era um peso. As pessoas tentam amenizar a situação, porém é conspícuo o constrangimento que meu pedido para que me diga algum talento especial, no qual eu me destaque, gera. Não há nada além de taciturnidade no recinto em que tal solicitação ocorreu. Até hoje é um vácuo no tempo, na alma - e um grande estilhaço em meu peito. 

Tenho 35 anos, não sou formado em nada, nem mesmo ensino médio, porque eu me sentia muito burro na sala de aula, não que eu não me sentisse da mesma forma em qualquer ambiente que fosse, porém o ambiente escolar me deixava mais angustiado ainda. Eu não entendia nada, e, para ser sincero, já estava decidido a não ser amigo de ninguém, porque já sabia que não havia nada para oferecer a nenhum dos integrantes daquela “classe opressora”. Todos eram muito mais aptos para adquirir os conhecimentos oferecidos pelos professores. Sempre gostei muito de ficar sozinho, ainda mais depois que descobri um refúgio: o mundo cinematográfico. Assistia filmes de forma compulsória e, aos 17 anos, comecei a fumar. Os dias se baseavam em café preto, cigarros e tempo ocioso. Eu nem sei como conseguia comprar cigarros, acho que nesse aspecto Satanás me sustentou (com isso podemos perceber que não é somente Deus que cuida dos seus). Depois de um tempo comecei a trabalhar numa livraria e confesso que era bem tranquilo. Folheava alguns livros, mas meu nível de paciência para me concentrar numa leitura era mínimo… Só existia uma coisa que me deixava atento como um predador: sexo. Eu queria fazer sexo com o máximo de mulheres que pudesse e, para isso, eu passei a me dedicar muito em conhecer táticas de conquista, porém percebi que o vínculo que eu precisaria desenvolver, com a mulher que eu tinha mente, para que ela confiasse em mim a ponto de fazer sexo comigo era absurdamente fora do meu alcance. Desisti dela e fui atrás de mulheres que não faziam tanto meu tipo, mas que pelo menos sentia haver uma chance de coito sem grandes execuções preliminares na aproximação social. Quando digo “ sem grandes execuções preliminares”, isso significa que não se faz necessário um cortejo ferrenho e moroso. Por um momento eu pensei que ali estava meu talento, porém essa crença só durou até eu verdadeiramente  tentar experienciar uma troca sexual com uma mulher. Antes era só acúmulo de teoria, quando cheguei na “hora H”, minha genitália não colaborou. Eu fiquei tão tenso que não teve jeito, nada fazia efeito, nem mesmo olhar para aquele corpo curvilíneo totalmente despido em minha frente. Sedento por mim, aguardando. A moça ficou envergonhada, se vestiu e foi embora. Ali, naquele dia, eu me senti mais frustrado do que na escola, porque além de burro, eu era brocha. Palmas para mim. Fumei umas duas carteiras de cigarro e senti raiva por ser quem eu era. Achei que eu seria másculo, que conseguiria colocar em prática tudo aquilo que li naqueles textos malditos, porém a vida me disse o contrário. 

 O tempo passou e eu ainda estava trabalhando na mesma livraria. Perspectivas? Pra quê? Não existem motivos para sonhar com algo, não no meu caso. Eu tenho um problema que ninguém mais tem, e não há diagnóstico para isso, ou há?   

Te contratei por uma noite e provavelmente não vou nem mesmo tocar no seu corpo, sabe por quê? Porque eu vou me sentir muito mais ridículo se eu o fizer, pois já sei que não conseguirei manter minha ereção por muito tempo. Isso me humilha mais do que simplesmente não fazer nada, entende? Faz com que eu me sinta um dejeto. - Ela só me olhava com seriedade. 

 Eu sei, eu simplesmente cheguei no seu endereço, apertei o interfone, me identifiquei e você permitiu minha entrada, eu segui rumo ao apartamento 505, como dissera. Você abriu a porta e eu desatei os nós da garganta e estou até agora falando ininterruptamente sobre coisas que não te agregam em nada, e que serão deletadas do seu arquivo mental assim que eu for embora amanhã pela manhã, mas tudo bem, talvez você se lembre dessa noite num contexto geral. 


  • Deixe-me ver se eu entendi: Você não quer nem tentar? - indagou-me. 


Não, cara Nina. Não quero nem mesmo lhe tocar. Só quero passar essa noite em sua companhia porque, como podes notar, sou um homem de 35 anos totalmente frustrado e sem expectação alguma. Não me entenda mal, não estou lhe depreciando, porém já estou num estágio onde já não faço questão de sofismas. 


  •  Temos uma noite inteira pela frente. É muito tempo, mesmo que você tenha essas questões, posso fazer você se divertir. - insistiu com um sorriso malicioso, mordendo os lábios. 


Nina, - fecho meus olhos e deixo o ar sair de meus pulmões - eu nem mesmo tenho um instrumento que cause algo além de desapontamento. É impressionante numa conotação bem negativa, sendo sincero.


  • Amor, assim, sendo sincera, acho que você deveria ter gasto esse dinheiro que usou para pagar a noite comigo para uma terapia, sabe? Eu não trato esse tipo de coisa. Meu ramo é outro, como você já deve saber. Se você não quer sexo, não tenho nada para fazer aqui com você. - mirou-me seriamente, e seu olhar era fulminantemente sensual. 


Tudo bem, o que você quer fazer? Eu paguei para passar uma noite com você, posso te pedir para colocar uma roupa confortável, tirar a maquiagem e deitar na cama? Não ache que sou um cavalheiro ou coisa do tipo, eu só não quero me sentir menos do que já me sinto. 


  • Por que você está se colocando numa situação tão depreciativa? 


Só faça o que eu solicitei, por favor. Depois disso irei me deitar ao seu lado na cama e conversaremos melhor. - Ela me olhou relutante, porém assentiu e foi retirar a maquiagem e colocar um babydoll por cima daquela lingerie preta de renda colossalmente sexy. Enquanto isso eu admirava-a. 


  • Ok, já estou deitada aqui faz uns 20 minutos, você não vai vir deitar ao meu lado? - Fechei a janela, levantei-me, retirei minhas calças e a camiseta, dobrei e coloquei sobre a cadeira. Em seguida, deitei-me ao seu lado. 



CENA III 


  • Você ainda trabalha na mesma livraria? - indagou Nina.  

  • Não, sou empacotador num supermercado. - respondeu Ninguém. 

  • Não quero ser intrusiva, mas de onde tirou dinheiro para pagar essa noite? 


Ninguém se manteve taciturno, e Nina não se sentiu à vontade para insistir por uma resposta.Ele pediu por um cobertor e, por sorte, ela tinha um guardado no armário. Era praticamente nula a utilidade dele naquele apartamento, pois a última coisa que teria em cima da cama eram cobertores - nem estava frio -  porém por alguma razão a coincidência veio a calhar. Brincou internamente pensando “nenhum cliente fica insatisfeito por aqui!”.  

 Ninguém agradeceu e sorriu. Seu sorriso era triste. Seus dentes eram tortos e seus lábios eram finos. Seus olhos, mesmo  impessoais, permitiam que Nina lesse o sofrimento nas entrelinhas. 


  • Você está com medo de dormir? - questionou ele. 

  • Estou com uma faca debaixo do travesseiro. 

  • Isso explica bastante, obrigado pela informação. - sorriu. 

  • Tem certeza que não quer esquentar as coisas?

  • Por favor, não insista. - disse ele em tom um tanto mais grave. 

  • Ok, não está mais aqui quem falou. Desculpe. 

  • Você se importaria caso eu te pedisse para me contar o motivo que te levou para o mundo da prostituição? 

  • Não, sem problemas, posso falar sim. Na verdade é bem simples, escolhi ser uma prostituta porque foi nisso que me encontrei. Não estou romantizando nada, estou simplesmente sendo sincera e dizendo que foi o que quis fazer na vida. Espero que não me julgue inadequada porque não sou. Sou uma mulher como qualquer outra, com sonhos e objetivos, batalhando por suas próprias realizações. Existem questões muito complexas atreladas à prostituição, e eu entendo que ao mesmo tempo que há um tipo de sentimento de poder, também há uma subjgação social muito forte. Ao mesmo tempo que você é uma “deusa”, você também não passa de uma mercadoria. Um corpo. Não estou aqui para discutir as bases morais ou éticas da profissão, e sim para falar de vivência. Para falar que existem muitas questões soterradas aqui dentro. Não sou somente um buraco onde homens colocam suas genitálias. Talvez possa parecer pesado demais falar dessa forma tão seca, porém não gosto de fazer rodeios. É isso. 

  • Você é muito inteligente, sabia? Não consigo sustentar uma conversa com você. Mesmo que eu tente, só vou me enrolar inteiro, então melhor já avisar-lhe logo que sou incapaz de prosseguir, mas obrigado por compartilhar. 

  • Acho que você se deprecia demais. Nem se dá espaço para ser. 

  • Eu só sou realista. Tudo o que eu tenho é fruto da ajuda de alguém ou então da minha própria desgraça. Quando é algo bom, alguém me ajudou… Não tenho muito espaço para algo além do conformismo com a mediocridade que é ser eu. 

  • Entendi, e como consegue se manter em um emprego? Se fosse tão inútil assim, nem isso conseguiria… - alegou Nina. 

  • Eu fui demitido desse mesmo emprego.

  • Quando? Por que você mentiu dizendo que era empacotador num supermercado ao invés de dizer que está desempregado, então? 

  • Faz poucos dias, a ficha ainda não caiu totalmente. Ok, ok; eu não falei que estou desempregado porque, quando paro para pensar nisso, começo a cogitar fortemente o suicídio. 

  • Entendo, já cogitei isso algumas vezes.

  • Já se imaginou morta e vestida nessa lingerie por baixo do seu babydoll?  

O silêncio se instaurou no ambiente, porém tanto a mente de Ninguém quanto a de Nina fervilhavam. Os dois eram adeptos a pseudônimos e também cogitavam suicídio. Enquanto olhava para o teto, Nina pensava em como se livrar do homem deitado ao seu lado. Ela estava com uma sensação muito ruim em relação a ele, principalmente depois dos seus assuntos e de sua mentira.

 “Eu não devia ter reservado a noite para alguém que pede para ser chamado de Ninguém. Que estulta!” - pensou. 

 Ninguém estava de olhos fechados, e a única coisa que ele conseguia visualizar era uma versão mortiça de Nina. Lábios gélidos e cinzentos. Olhar congelado, nenhuma pulsação sanguínea… Um total deleite. Aquele belo corpo sem viço, sem alma. Somente ossos e tecido adiposo…Libidinosamente morta naquela cama, em seus braços. 

 Ele a tocaria por inteiro, como se fosse um templo sagrado. Beijaria seus lábios de fuligem e se afundaria em seus próprios delírios enquanto acariciava aquele corpo morto. Estava impossível de suportar o desejo que sentia por tê-la morta em seus braços. 

  • Nina, eu vou tocar em você, porém quero que siga algumas regras: não se movimente, se mantenha séria, não faça barulho algum, mesmo que sinta vontade. Quero silêncio. Vou começar pelos seus pés. 

  • Como assim? - disse, assustada. 

  • Se finja de morta. Vai ser como se eu estivesse analisando seu cadáver. 

  • Que horror, você está doente? Não vou me sujeitar a isso! 

  • Por favor, esse é meu pedido. Prometo que não farei nada além de alisar e tatear sua pele delicadamente. 

Nina fez um sinal positivo através de um meneio de cabeça e Ninguém levantou-se. 

  • Quero que se deite no chão. - solicitou, virado de costas. 

  • Claro! - falou Nina, enquanto procurava pela faca embaixo do travesseiro - Eu só gostaria de te perguntar: esse é o problema que você tem e ninguém mais sabe? 

  • A que você se refere exatamente? - virou-se para ela - Ei, calma! Abaixa essa faca! - disse com as mãos estendidas para o alto, como se estivesse sendo rendido. 

  • Saia agora do meu apartamento!!! - esbravejou Nina. 

O homem em sua frente pôs-se a chorar copiosamente, atirou-se no chão e tremia sem parar. Ele balbuciava algumas coisas, porém Nina não conseguira decifrar nada. Ela continuava com a faca apontada para ele. De pé. 

 É claro que ela gritou o mais alto que pôde, dizendo para ele ir embora. Ele parecia hipnotizado pelo próprio choro, porém, de uma hora para outra simplesmente secou as lágrimas, levantou-se e olhou profundamente para a meretriz. 

  • Por favor, solte essa faca e se deite no chão. - falou ele, calmamente. 

Nina continuou onde estava, não falou uma palavra e os dois ficaram se encarando por um bom tempo. Ele tinha um semblante zombeteiro, parecia já saber onde tudo aquilo iria parar. 

  • Vá para o quinto dos infernos! Saia agora daqui! - Falou com a voz embargada e as lágrimas transbordando por sua face. 




CENA IV


Claro que eu poderia ter vestido minhas roupas e ido embora. Essa seria a atitude que eu provavelmente faria se não estivesse tão saturado de mim mesmo e desse jeito patético com o qual costumo conduzir meus passos. Decidi fazer algo novo, me desafiar… As próximas horas seriam basicamente a coisa mais incrível que já tive capacidade de fazer. Senti-me talentoso pela primeira vez na vida. Eu olhei para aquela mulher de pé, com uma faca apontada em minha direção e percebi que  não me importava com o que ela poderia fazer, mas sim com o que eu estava ansiando. Caminhei calmamente em sua direção, sentindo seu desespero como um soneto de amor. Nina me fez enxergar que tudo o que eu precisava era de um pequeno sacolejo para despertar para a verdadeira missão de minha vida: possuí-la sob a égide da morte. Sim, eu a queria desfalecida em meus braços, e faríamos amor, eu e aquele corpo mortiço. 

 Ela não teve piedade e me retalhou os braços até enfiar a faca na lateral de minha cintura. Lado direito. Não retirei a faca, pois sabia que se fizesse isso acabaria por piorar minha situação, e meu serviço ainda não estava feito. Consegui segurá-la firme a forçá-la a deitar no chão, sentei em sua barriga e apertei seu pescoço. Ali só conseguia pensar no quão bela ela ficaria assim que perdesse o sopro da vida e sua alma não tivesse mais casa em matéria. Enquanto eu me concentrava em sufocá-la, ela puxou a faca e só pude sentir a mesma rasgando novas partes de meu tecido adiposo. Não tirei as mãos do pescoço dela. Estava obstinado. Esse era o meu talento, eu tenho certeza, como não fui capaz de desconfiar antes? Sinto uma dor insuportável, perco as forças e então parece que o ar fica pesado, suo frio e me sinto tonto, sem muito senso. A faca está em meu peito. Caio por cima dela, o que faz com que o objeto crave mais profundamente. Ouço alguns palavrões, porém a voz dela parece tão distante… Estou letárgico. Não consigo dizer nada, meus olhos estão semicerrados; consigo vê-la de pé, com o celular em mãos, conversando com alguém. Já sei que tenho pouco tempo de vida, consigo sentir a morte me chamando bem de pertinho, ao pé do ouvido. 

 Algumas pessoas podem achar que fui burro, mas na verdade eu só não aguentava mais ser um total fracasso em tudo. Posso dizer que lutei por motivos, que tentei encontrar minha missão de muitas maneiras, e essa foi minha última tentativa. 

Sou um homem de 35 anos, morto por uma hetaira. Agora tenho toda uma eternidade para fracassar. Não sinto raiva dela, pois na verdade ela não fez nada além de me mostrar que esse também não era o meu talento. Vejo meu corpo, tão frágil, atirado nesse chão frio. Acho que fiquei mais bonito. Uma fotografia em filtro sépia seria ideal. 

 Estou morto para comprovar tudo o que disse a meu próprio respeito. Até posso dizer que sou grata a ela, pois se eu a tivesse matado, quem me mataria depois? Eu sei que alguém apareceria, mas quanto tempo eu teria de ficar angustiado, com medo da morte? Eu não teria capacidade de cometer autoquíria, e provavelmente não saberia o que fazer com aquele templo cinzento e frígido atirado no chão do apartamento, caso tivesse logrado matá-la… Foi o melhor final que um homem inútil como eu poderia ter. Pode até ser desapontador, porém o que se espera da história de alguém como eu? Algo incrível e surpreendente? Eu sou um Ninguém, e minha maior dádiva foi a morte. 

O objetivo de todo esse relato é mostrar que histórias ruins podem ficar piores.


(Victória Elsner)



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