Nunca trabalhei tanto em toda minha vida, parece que o tempo não passa. No meio de tantos papéis, cartas, contratos e burocracias, alguns pensam que eu não faço nada além de ajudar a encontrar títulos, anotar na ficha e ser gentil. Não os culpo, pois realmente prefiro que vejam a parte plácida de meu trabalho, e não o que o torna enfadonho, e hoje é o dia em que me detenho em fazer o trabalho cansativo (como se todos os outros dias não fossem). Chega uma moça.
- Bom dia! Gostaria de saber se existem taxas para o primeiro cadastro. - perguntou em seriedade.
- Olá, não. Caso esteja interessada, preciso dos seus dados somente. - ela é uma questão de opinião, a moça, alguns podem achar sua beleza bizarra, eu estou no grupo dos que a considerariam de uma venustidade portentosa.
- Ok, meu nome é Dara W. - falou enquanto revirava sua valise preta.Ela me ditava seu CPF e outras coisas e eu me perguntava que tipo de livro escolheria, se ela optaria por algo mais voltado para o simbolismo ou para o romantismo gótico. Confesso ser um admirador das duas escolas, e também de toda a beleza que há no mundo desalumiado dos alternativos à cultura considerada "comum". Seu vestido preto todo detalhado em rendas, seu coturno... tudo indica que ela não teme soar inacessível.
- Você teria alguma obra de Charles Baudelaire? - perguntou-me.
- Alguma em específico? - indaguei, tentando decifrar o código quimérico que existia no lugar de seus olhos.
- Sim, gostaria de "As Flores do Mal".
Ela certamente não estava com muita vontade de conversar, e eu, como o homem reservado que sempre fui, detive-me a procurar o que me pedira e levá-la até o corredor onde se situava o livro. Mostrei o espaço que oferecíamos para leitura e ela decidiu sentar-se em uma das mesas. Logo que voltei para meu posto, confessor que fantasiei a hipótese de que conversaria ao menos duas palavras com ela além do estritamente necessário. Srta W. passara horas concentrada em sua leitura, despediu-se com o livro em mãos e disse que voltaria em breve. Muito educada em seus modos, apesar das mínimas expressões faciais. Ainda seríamos amigos, pensei, desejando muito que isso realmente ocorresse.
UM NOVO DIA
O sol chegou e aproveitei para resolver algumas pendências, aquelas torradas queimadas terei de jogar fora. - quem era o especialista nas refeições noturnas? Eu nunca fui. Hoje é o dia de praticar alguns exercícios, ler, e se possível, iniciar a revisão de livros que me foram enviados. Existem dois lados da moeda sobre trabalhar, de um modo geral: você pode seguir uma rotina regrada ou acabar por virar um zumbi que bebe café. Já fui os dois, e atualmente, com uma vida estabilizada, costumo ser bem organizado. Óbvio que existem dias corridos onde preciso de afinco, mas normalmente costumo ter uma equipe que faz muito bem o trabalho que exijo, porém como o perfeccionista que sou, tudo passa por minha análise. Nos momentos em que penso em tudo o que construí, sinto falta do mundo agitado que existia em minha cabeça. Parece que um dia eu acordei dentro de uma cúpula livre de toda a impermanência que é viver, mas não que isso seja completamente negativo, só que quando você esquece do quanto a vida e as pessoas são expiráveis, acaba não parando para refletir sobre o exício; só sabe pensar em tudo o que conquistou e em uma nova forma de conquistar cada vez mais e mais coisas, sendo que o que deveria ser considerado é tudo o que se viveu, todos os momentos que existiram dentro do coração e que se aproximaram um pouco mais do que costumam chamar de sapiência, mas parece que sempre precisamos perder para enxergar que não existe uma linha de chegada ou algum topo a ser alcançado. Em casa sou cumprimentado por Maat e Epicuro, que sempre procuram por comida logo após se roçarem em minhas canelas - esses gatos são tudo que tenho, e não sei se suportaria ver algum deles sofrer. Coloco um pouco de ração em seus devidos potes e então minha existência é olvidada. É claro que não tentarei fazer novamente a maldita janta – já foram 3 tentativas fracassadas - então decido pesquisar alguma nova receita na internet; procuro, procuro, procuro até que encontro algo com cogumelos shimeji e massa caseira. Arriscado. Em mais alguns minutos de busca encontro um restaurante e peço uma batata recheada com os tais cogumelos shimeji e molho branco de leite de castanha-de-caju. Chega em 30 minutos e não corro riscos de incendiar a casa. Sinto-me solitário na maior parte dos jantares, e é nesses momentos em que me pego a buscar na memória os momentos mais felizes que tive ao lado da mulher que amei - encontro vários - mas o pior de tudo é perceber que isso só me traz uma consternação enorme no peito. É óbvio que não penso em suicídio nem nada disso, pois quem se lembraria dela? - quem se lembrará de mim? - Victoire sempre foi autêntica, e sua peculiaridade a fazia parecer uma mulher de personalidade tétrica, fúnebre e qualquer outro sinônimo consecutivo a tais palavras, o que não estaria totalmente errado colocando em vista seus gostos pessoais. O mundo externo a julgava muito por sua aparência, o que eles não sabiam é que, apesar de seu visual obscuro, seu coração era doce. Srta. Assels sempre será a mulher da minha vida, e ninguém que a conhecesse realmente poderia negar a sensibilidade quase lúdica existente em seu coração.
A comida chegou e me deparei com uma bela surpresa: acho que este será o meu jantar diário! Nunca imaginei que pudesse me satisfazer tanto com uma batata recheada. Óbvio que eu estava faminto demais para pensar em sabores atípicos, só que a questão é: não sei cozinhar e não quero me render às comidas congeladas. Minha família sempre foi muito rígida em relação à sua maneira de agradecer pelo que a natureza proporciona, e nunca admitiu a possibilidade de trocar uma alimentação saudável e nutritiva por "imitação barata" – sinônimo para fast food - que não entrega nada além de doenças. Por conta desse modo de viver, acabei aprendendo a enxergar o mundo de forma diferente, e isso resultou em uma alimentação e estilo de vida com mais consciência. O café forte que costumo fazer durante a semana está sendo passado, ainda é cedo para pensar em relaxar, preciso ligar para algumas pessoas e definir algumas datas; abrir alguns e-mails e pensar positivo para não me estressar muito com o que lerei... Este é o dia em que me arrependo de não ter escolhido ser hippie.
Aquele café estava com saudades de me ver tão saturado, a sorte é que foi um último gole e finalizei meus afazeres. Maat estava serelepe com seu ratinho de brinquedo enquanto Epicuro se esfregava em minhas pernas e ronronava feito um trator, eu sabia o que ele queria: sachê! E não estava enganado, aquele comilão não tem jeito! Com essa premissa, decidi me recolher. Após tomar banho, sentei na cama com uma camiseta vetusta e lembrei que a lua sempre é uma bela imagem para se ter antes de deitar. Ao olhar para as estrelas me pego pensando em alguns momentos poéticos que vivi, inclusive em todos os que se remendaram pela casa inteira, em conjunto com a dona de meus pensamentos. Interesso-me por aquilo que consegue ser elevado através do sentimento, dado isso, ter uma vida repleta de livros e histórias para contar se tornou meu maior objetivo, e confesso que o realizei. Só que, agora, meu real desejo é viver eternamente nas fantasias que minha mente cria ao fechar os olhos, e esse me parece intangível há muito.
O ENCONTRO
A comida chegou e me deparei com uma bela surpresa: acho que este será o meu jantar diário! Nunca imaginei que pudesse me satisfazer tanto com uma batata recheada. Óbvio que eu estava faminto demais para pensar em sabores atípicos, só que a questão é: não sei cozinhar e não quero me render às comidas congeladas. Minha família sempre foi muito rígida em relação à sua maneira de agradecer pelo que a natureza proporciona, e nunca admitiu a possibilidade de trocar uma alimentação saudável e nutritiva por "imitação barata" – sinônimo para fast food - que não entrega nada além de doenças. Por conta desse modo de viver, acabei aprendendo a enxergar o mundo de forma diferente, e isso resultou em uma alimentação e estilo de vida com mais consciência. O café forte que costumo fazer durante a semana está sendo passado, ainda é cedo para pensar em relaxar, preciso ligar para algumas pessoas e definir algumas datas; abrir alguns e-mails e pensar positivo para não me estressar muito com o que lerei... Este é o dia em que me arrependo de não ter escolhido ser hippie.
Aquele café estava com saudades de me ver tão saturado, a sorte é que foi um último gole e finalizei meus afazeres. Maat estava serelepe com seu ratinho de brinquedo enquanto Epicuro se esfregava em minhas pernas e ronronava feito um trator, eu sabia o que ele queria: sachê! E não estava enganado, aquele comilão não tem jeito! Com essa premissa, decidi me recolher. Após tomar banho, sentei na cama com uma camiseta vetusta e lembrei que a lua sempre é uma bela imagem para se ter antes de deitar. Ao olhar para as estrelas me pego pensando em alguns momentos poéticos que vivi, inclusive em todos os que se remendaram pela casa inteira, em conjunto com a dona de meus pensamentos. Interesso-me por aquilo que consegue ser elevado através do sentimento, dado isso, ter uma vida repleta de livros e histórias para contar se tornou meu maior objetivo, e confesso que o realizei. Só que, agora, meu real desejo é viver eternamente nas fantasias que minha mente cria ao fechar os olhos, e esse me parece intangível há muito.
O ENCONTRO
Passei a semana inteira tentando ser duas coisas ao mesmo tempo, o homem simpático que ajuda a encontrar livros e, logo após, uma criatura desatinada tentando recuperar o tempo perdido daquela segunda feira. Ao invés de ficar pesquisando sobre "As Flores do Mal", deveria ter me concentrado em uma montanha de problemas burocráticos em cima de minha mesa... Falando nisso, será que a moça taciturna aparecerá? Obviamente deverá vir para devolver ou estender seu tempo de leitura em algumas semanas... Evidente que eu estava interessado em saber quem era Srta W.- um mistério curvilíneo - mas quem não estaria? Já deixei quase tudo em ordem, é só por isso que posso me deixar levar por qualquer pensamento, mas o que eu mais gostaria mesmo era de reler algo de Poe. Nas estantes encontro o livro que me satisfaz. Embriago-me com todas aquelas palavras sem perceber que há alguém esperando atendimento em frente ao balcão, desculpo-me pelo ocorrido e atendo. Volto ao trecho em que parei. O dia foi tranquilo, e quando percebi já estava fechando as portas e caminhando em direção à minha casa, passando o café e ligando para um restaurante qualquer para comer assistindo um filme. Minha vida não é cheia de aventuras, mas tem o seu charme. Hoje, depois de tantos anos, percebo o quanto o valor das coisas é relativo: estudei ao extremo para ser reconhecido como “o rapaz da biblioteca”, se eu me importo? Ao escolher este seguimento, já sabia do quanto ele é considerado irrelevante fora do meio intelectual, a não ser quando alguém lhe pergunta e então, com aquele tom de orgulho, você responde: “Sou formado em biblioteconomia” – porque se você disser que é um bibliotecário também já se torna algo simplório ao ver de muitos.
- Olá! Eu não sei seu nome, você gostaria de se apresentar? Preciso devolver este livro. - tirou da bolsa a obra de Baudelaire – Ah, e, tens algo de Nabokov? - ela realmente não gostava de perder tempo. Falava tudo o que precisava o mais rápido possível, o que não considerei como algo negativo.
- Meu nome é Olivier - peguei o livro e iniciei o processo de devolução - já pesquisarei para você a respeito das obras que tenho disponíveis na biblioteca, o que achou do livro? - perguntei, tentando ultrapassar a barreira estritamente executória.
- Ele consegue trazer beleza ao mundo de uma forma inusitada, poucos enxergam, mas essa é a graça em ser único. - disse de forma sincera e sucinta. Não era uma mulher de muitas palavras, pelo visto.
- Tenho vários livros de Nabokov disponíveis, gostaria de dizer algum título ou prefere que lhe encaminhe diretamente para a estante em que todos se encontram? Eu concordo com você a respeito de Baudelaire, ele não é óbvio em suas visões de mundo... - disse em tom ameno.
- "Despair". - disse olhando-me nos olhos, sem muita expressão. Eu nunca sabia se estava falando demais, ultrapassando o limite, sendo desagradável... Enfim, eu nunca sabia nada, e esse era só o começo... Segui até o corredor direcionando-a até o livro e entregando-lhe o mesmo, ela me agradeceu e surpreendeu-me dizendo apreciar meu gosto literário. Mesmo com toda sua objetividade, não deixava de expor o que pensava e sempre me parecia uma grande surpresa qualquer tipo de comentário considerado um pouco fora do script, como perguntar meu nome, por exemplo, pois nunca imaginaria ela tendo qualquer tipo de curiosidade a respeito de outros seres. Não havia nenhum ar de superioridade em suas ações, só parecia não se importar se havia alguém ali ou não. Passou um tempo considerável na sala de leitura, e não minto ao dizer que queria muito poder conversar sobre coisas desse universo literário com a mesma. Eu me concentrei em meu livro e sai do mundo, atendi alguns universitários e analisei algumas doações de livros. Srta W. continuava ali.
- Você conhece algum lugar legal aqui por perto?
Assustei-me e pensei por alguns segundos, além do fato de estar totalmente concentrado em minha leitura, jamais esperaria que Srta W iniciaria qualquer tipo de conversa aleatória em menos do que 365 dias, menos ainda uma informal.
- Se estiver com fome, existe uma cafeteria aqui na esquina, é um dos poucos lugares que se preocupam com o silêncio mesmo estando sempre movimentado. - disse sendo o mais sucinto possível.
- Você sabe o que eles oferecem no cardápio?
- Sim, eles têm muita variedade, além de qualidade, é claro! Nem preciso dizer que o estabelecimento é vegano. – sorri levemente.
- Ótimo. – disse e voltou para a sala de leitura.
Depois de tanto tempo, esperar mais dez minutos na esperança de que a Dama Obscura se percebesse em relação ao horário de fechamento estabelecido pela biblioteca não me faria muita diferença, até porque chegar em casa não estava no ponto mais importante de minha lista de afazeres. Esperei, esperei e esperei, até que decidi ir ao seu encontro - com aquele jeito avoado talvez ela nem soubesse que horas fechávamos.
Quando cheguei, Srta. W me olhou e fechou o livro.
- Sim? – dissera.
- Já ultrapassamos o horário de fechamento, Srta. - olhei com certo medo de parecer rude.
- Mas minha nossa! Desculpe-me. - ela disse fechando o livro e levantando-se rapidamente numa uma elegância inquestionável (como consegue?)
A mesma me aguardou enquanto eu desligava as luzes e checava tudo. Ao trancar as portas também se manteve ali, acredito que não queria ser indelicada de ir embora e deixar-me só, já que havia ultrapassado o horário.
- Peço verdadeiras desculpas pelo ocorrido, Sr. Olivier. – ruborizou.
- Você precisa de um táxi? Não se preocupe, foram só alguns minutos.
- Não, na verdade gostaria de saber: aquela cafeteria que me dissera ainda está em funcionamento este horário? – perguntou-me.
- Sim.
- Acompanhar-me-ia? – disse, mas não me pareceu insegura em receber um não.
Surpreendi-me, e por alguns instantes revirei a mente que, em dualidades, confundia-se inteira. A questão maior acabou por ser: Por que não?
Esforcei-me muito para não demonstrar o quanto fui consumido por um sentimento de inquietude com a ideia de ir a um café com Srta. W, e até mesmo o quanto aquilo me parecia tão distante quanto o sol em sua pele. Eu estava quebrando barreiras e tentando ser mais como ela foi: imprevisível. Caminhando até o café, a mesma demonstrou-se um mistério, a diferença é que eu não precisei tentar cobrir silêncios desconfortáveis. Ela me disse não imaginar uma mente tão pitoresca quanto a de Nabokov ao escrever "Despair", e que realmente precisava de uma pausa para respirar depois de tantas palavras. Eu absorvi aquele momento e entendi uma coisa: Dara, permiti-me chamá-la em pensamento, era um quebra-cabeça daqueles.
Na cafeteria, escolhemos uma mesa e recebemos os cardápios, eu só precisei olhar para a garçonete para que ela assentisse - "o de sempre" - e Srta W continuou lendo o cardápio.
- Você já experimentou esta salada com maionese de abacate? - perguntou.
- Sim, gosto bastante. O pepino japonês traz frescor, os tomates cereja causam a explosão e então a maionese traz homogeneidade na boca e todos os sabores conversam entre si. Muito bom. – penso ter me empolgado muito para uma salada.
Dara não fizera questão de me responder ou de falar o que pensava a respeito de minha descrição. Levantou a mão fazendo sinal para a garçonete - Marina o nome dela, inclusive.
- Sim? - disse Marina, a garçonete.
- Eu gostaria de pedir esta salada com maionese de abacate - olhou-me rapidamente com uma expressão indefinida, se era algum tipo de sorriso no "mundo obscuro de Dara W" eu ainda não descobri. - e também um suco natural de laranja, por obséquio.
- Claro. - percebi que Marina não teve muita reação a respeito de Srta W, mas que também não a definiu como um ser humano, se é que me entende.
Após fazer seu pedido, fiz questão de ser o que sempre fui e puxei um assunto qualquer a respeito da lanchonete.
- Eu tenho opiniões a respeito deste lugar. - disse ela, muito ciente de si.
Assenti para que continuasse.
- É aconchegante e muito bem organizado, as mesas são limpas e não existem pessoas de algazarra, o que faz com que eu possivelmente apareça por aqui mais vezes. Gosto do cardápio e também do atendimento, você vem sempre aqui? Percebi que nem precisou falar o que iria querer para que já entendessem o que seria pedido.
- Confesso que costumo vir bastante aqui, além de ser perto de onde trabalho também é perto de minha casa.
- E o que você mais gosta neste lugar?
- Do silêncio. - disse sem pestanejar.
A moça de vestes negras, e olhar impenetrável, assentiu, porém passou alguns segundos em seus próprios pensamentos, até esboçar algum deles em voz alta.
- Concordo mais do que imaginava!, o silêncio deveria ser mais apreciado pelos estabelecimentos. Normalmente as pessoas diriam algo óbvio: "a comida", mas parando para pensar a respeito, um local onde o silêncio é preservado é uma raridade, e a comida ser boa é o mínimo que se espera. Costumo ir a bibliotecas e ficar em minha casa justamente por isso. - pausou rapidamente com alguma expressão indefinível - este lugar é um paraíso na terra! - disse enquanto tinha uma visão panorâmica de todo o espaço da cafeteria.
Eu não sabia se ria, se mantinha a seriedade ou se somente concordava com seu ponto, mas acabei rindo. Sua forma engajada de expor seus pensamentos a respeito de algo fazia com que me sentisse em um livro antigo. Ela transformava qualquer amenidade em uma complexa divagação de um modo tão lúcido! – minha maior vontade era ouvi-la pelo resto da noite falando sobre os detalhes belíssimos da terceira xícara da mesa ao lado do balcão em que um senhor grisalho se apoiava, ou sobre como dispomos de tantos argumentos inválidos e patéticos para questões básicas como a categorização de predileções em nichos mentais. Dara não se importou muito com minhas risadas tímidas, mas percebia uma interrogação em sua face, que logo tomava rumo para os pratos sendo servidos em nossa mesa. Srta W. me pareceu ter gostado de sua escolha, inclusive interpelou se poderia pedir a receita da "Idílica Maionese" - como apelidara. Eu disse que poderia tentar, mas não daria certeza, pois a Dona Filó – proprietária do local - era muito apegada com seus segredos culinários.
- Você já está assustado com meu modo de portar-me? – questionou, porém não arrisco em definir se a mesma sorria ou não.
- Eu deveria? – devolvi.
Ela gargalhou, parou por um instante mirando meus olhos com a boca entreaberta e então as palavras começaram a formar-se em seus lábios naturalmente carmesim.
- Percebo que minha companhia não apetece certas estirpes humanas, sou totalmente a favor de tal pensamento, pois isso demonstra que não tenho uma personalidade ocultada em um escrínio vetusto qualquer. As pessoas se assustam com meu jeito, principalmente porque nem chegam à denotação de que falo até demais para alguém usualmente tão taciturna. O que eles não entendem é que sou criteriosa. – pausou um segundo para tomar um gole de seu suco - Por que estou lhe falando isso, não é mesmo? Bom, estou a compartilhar com vossa mercê este fato por um simples motivo: esclarecer que já percebi que sua mente está equiparada à minha, do contrário sei que jamais estaria aqui. – nesse momento eu tenho certeza que ela sorriu. Seus olhos também, e eu sentia que ela estava entrando em minha vida para permanecer.
- Critérios são muito importantes para qualquer contexto vital. Concordo com você, porém não esqueça que eu somente aceitei lhe fazer companhia porque não queria que se sentisse mal por ter se perdido no tempo enquanto lia na biblioteca, e que não nos conhecemos de modo efetivo a ponto de poder definir um nível de compatibilidade específico.
- Exatamente! Você consegue perceber o quanto isso é aleatório? – falou com empolgação.
- Sim! Um dos momentos mais aleatórios que já vivi ao longo destes anos – confessei, e Srta. W olhou-me de um modo tão sério e profundo que me fez sentir aquele “friozinho básico” na espinha dorsal. – Não gosto de superficialidade. Nas interações humanas isso vem sendo quase inerente, o que só demonstra o quanto pessoas temem se aprofundar, porque se ousarem fazê-lo, terão de encontrar a si mesmas primeiramente, e isso parece pavoroso.
- Aí desenvolvem relações superficiais para aplacar vazios profundos, método que, diga-se de passagem, tem um prólogo de fracasso, e já sabemos que o epílogo não é muito diferente. O espírito é a essência do ser, se o que é essencial está adoecido, o raso jamais será suficiente. Qual o sentido de existir em um mundo onde os finais de semana são o ápice da vida? Parece que realmente somos animais políticos muito bem adestrados. – completou com um sorriso torto muito apropriado (para o planeta dela, conclui, pois deste mundo a mesma jamais poderia ser). Dara discorreu durante um bom tempo a respeito de um padrão moral e ético totalmente novo e cheio de peculiaridades. Encantou-me com cada gesto e palavra, enquanto eu perdia totalmente as minhas naqueles olhos amendoados. Ela falava tão bonito que parecia um novo tipo de arte, ao menos para mim. Jamais conheci alguém com uma oratória tão idílica.
- Você acha que algum dia não sentirá mais prazer algum em viver, a ponto de cogitar autoquíria? - perguntou-me dando mais uma garfada em seu prato.
- Não sei se tenho uma resposta certa. Gosto muito de analisar o mundo e, nesses momentos, perco-me em divagações que quase nunca se finalizam de modo efetivo. Sempre vão e voltam ao longo de minha vida, claro que percebo e levo em consideração os contextos sociais e todos os motivos que fazem alguém ser como é, porém não posso negar minha decepção em relação a certos comportamentos considerados passíveis de aceitação e consuetudinários pela hegemonia social. Certamente que deve-se levar em conta o curto espaço de decisão, dado o pouco freio ético e moral dos seres pensantes. - devolvi pensativo.
Dara assentiu e continuou a apreciar sua comida enquanto eu beliscava algumas das batatas rústicas que sobraram em meu prato. Em seguida prontificou-se a falar de modo engajado.
- Sim! Veja: são nos dados 500 milissegundos para definir nossas escolhas, sendo que 400 desses são destinados à visualização e seleção, quase automática, daquilo que já nos é costumeiro. Sobrando, assim, somente 100 milissegundos para analisar novos formatos de conduta e agir de acordo. É pouco, e é nisso que muitos se afundam dentre os botões das próprias inquietudes.
-Seria essa então a desculpa perfeita para remanescer em ciclos viciosos de atos indecorosos e de total ímpeto? – indaguei.
- Mas decerto que não! A percepção desses fatores torna o ser totalmente responsável pelo caminho que outorga para si, pois sabendo disso, tem o dever de frear-se a fim de pôr os pensamentos em linhas mais lógicas e frente a uma moral e ética de níveis mais elevados, porém quem não consegue perceber-se no momento e frear tais condutas, certamente deverá sentir-se, no mínimo, culpado por não tê-lo feito.
- O animal que reside no ser humano deve ser levado em consideração, porém jamais visto como uma muleta, a fim de fortalecer as próprias malfeitorias. Entendi. Concordo com seu raciocínio.
- O que você pensa sobre os métodos educacionais? Eu acho que as pessoas perdem o interesse justamente por não terem total poder de escolha a respeito do que irão fazer de suas vidas, e que Ivan Illich estava certo em muitos quesitos. Desculpe-me, pergunto por ser curiosa e, também, porque a maior parte dos que conheço sempre sofrem de desgosto a respeito da vida escolar e acadêmica.
- Suas conclusões são verdadeiras, conheço muitos que simplesmente passaram a viver no automático de tudo. Não tenho muita familiaridade com este autor, porém sei que ele defende a ideia de uma educação sem escolas. De certo modo, penso que locais específicos para aprendizagem são tão relevantes quanto os estudos através da naturalidade e amadurecimento. Não acho que as coisas devam ser optativas em detrimento umas das outras, porém sou totalmente contra formatos estabelecidos e regulados pelo governo. - falei.
Dara tomou seu suco e não me respondeu nada. Se isso parecia bom ou ruim? Já desisti de tentar definir sua maneira de se comunicar. Levantamo-nos e fomos até o caixa, tentei pagar sua conta, mas, pelo que percebi, soou mais como uma ofensa do que como um ato de cavalheirismo. Apesar de ela me lembrar uma nobre senhorita das épocas vitorianas, não me remetia em nada a este fator cultural da época. Saindo da lanchonete perguntei se morava pelas redondezas - ela assentiu.
- Se me permitir, compartilharei algo totalmente sem nexo, porém muito relevante para mim. Posso prosseguir? – olhou esperando por meu assentimento, que foi feito através de um meneio de cabeça.
- O sol nunca me pareceu muito convidativo. Na verdade, a dinâmica das coisas é sempre tão cheia de complexidades desnecessárias que, muitas vezes, me planejo com antecedência para coisas banais somente pelo prazer de fazer aquilo que ninguém faria. Já existem tantas questões não levadas em conta somente por serem tidas como irrelevantes que eu, particularmente, prefiro ser do contra e pensar que todas devem ter seus quinze minutos de valor. O prazer advém da valorização de tudo aquilo que se considera insignificante visto a nível macro. Para que eu escreva, é necessária a junção de letras que, sozinhas, não passariam de códigos de comunicação traduzidos através de imagens, mas, em nível total, suas potencialidades em formar palavras e textos é que viabilizam um aprimoramento na comunicação humana. Já disse que fenícios são demais? – mirando-me, a mesma parecia fascinada, porém de um modo tão ingênuo que beirava o pueril.
Não pude deixar de sorrir no momento em que a mesma finalizara suas constatações. Ela simplesmente trocava os assuntos sem avisar e nem temia o que lhe diria, se pareceria uma tresloucada. Seu jeito me inquietava justamente por eu nunca saber o que sairia de seus lábios a seguir, ao mesmo tempo que seu olhar guardava um universo totalmente particular. Seus pensamentos me pareciam profundos demais para caber em um nicho cerebral do corpo. Aquela mente só poderia sê-la, o que é muito mais do que um conjunto de ossos, órgãos e tecidos adiposos. É intrínseco ao espírito. Senhorita W. olhava-me confusa enquanto caminhava (tão distraída), e eu nem tinha palavras para dizer o quanto aquela noite estava me saindo melhor do que qualquer encomenda. Ela é um mistério destemido, porque não hesita em desvelar a respeito de sua mente. Quanto mais esclarece a respeito de si, mais obscura e quimérica demonstra ser. Tão convicta de seus ideais cheios de porquês extremamente válidos que até parece saber ler o futuro, mesmo tendo um comportamento e pudor muito similares aos de eras vetustas, tudo numa medida não somente aceitável, como requerida e encantadora. Eu jamais pensei que pudesse existir, fora dos paraísos mentais que desenvolvi ao longo dos anos, uma mulher assim. Entre objetividade e subjetividade, simplesmente não sei o que escolheria (estou claramente perdido), mas se tentassem me fazer optar entre ela e o mundo, eu certamente diria que os mesmos estavam a cometer um grande pleonasmo.
- Olivier, gostaria de pedir-lhe desculpas novamente pelo ocorrido e, também, dizer que apreciei muito sua companhia. Não ser estulto como a maior parte dos seres é algo que conta muito. Com base nisto, acredito que ainda compartilharemos de uma amizade. - discorreu com seu rosto monocórdico de quase sempre, enquanto eu sorri levemente.
- Olá! Eu não sei seu nome, você gostaria de se apresentar? Preciso devolver este livro. - tirou da bolsa a obra de Baudelaire – Ah, e, tens algo de Nabokov? - ela realmente não gostava de perder tempo. Falava tudo o que precisava o mais rápido possível, o que não considerei como algo negativo.
- Meu nome é Olivier - peguei o livro e iniciei o processo de devolução - já pesquisarei para você a respeito das obras que tenho disponíveis na biblioteca, o que achou do livro? - perguntei, tentando ultrapassar a barreira estritamente executória.
- Ele consegue trazer beleza ao mundo de uma forma inusitada, poucos enxergam, mas essa é a graça em ser único. - disse de forma sincera e sucinta. Não era uma mulher de muitas palavras, pelo visto.
- Tenho vários livros de Nabokov disponíveis, gostaria de dizer algum título ou prefere que lhe encaminhe diretamente para a estante em que todos se encontram? Eu concordo com você a respeito de Baudelaire, ele não é óbvio em suas visões de mundo... - disse em tom ameno.
- "Despair". - disse olhando-me nos olhos, sem muita expressão. Eu nunca sabia se estava falando demais, ultrapassando o limite, sendo desagradável... Enfim, eu nunca sabia nada, e esse era só o começo... Segui até o corredor direcionando-a até o livro e entregando-lhe o mesmo, ela me agradeceu e surpreendeu-me dizendo apreciar meu gosto literário. Mesmo com toda sua objetividade, não deixava de expor o que pensava e sempre me parecia uma grande surpresa qualquer tipo de comentário considerado um pouco fora do script, como perguntar meu nome, por exemplo, pois nunca imaginaria ela tendo qualquer tipo de curiosidade a respeito de outros seres. Não havia nenhum ar de superioridade em suas ações, só parecia não se importar se havia alguém ali ou não. Passou um tempo considerável na sala de leitura, e não minto ao dizer que queria muito poder conversar sobre coisas desse universo literário com a mesma. Eu me concentrei em meu livro e sai do mundo, atendi alguns universitários e analisei algumas doações de livros. Srta W. continuava ali.
- Você conhece algum lugar legal aqui por perto?
Assustei-me e pensei por alguns segundos, além do fato de estar totalmente concentrado em minha leitura, jamais esperaria que Srta W iniciaria qualquer tipo de conversa aleatória em menos do que 365 dias, menos ainda uma informal.
- Se estiver com fome, existe uma cafeteria aqui na esquina, é um dos poucos lugares que se preocupam com o silêncio mesmo estando sempre movimentado. - disse sendo o mais sucinto possível.
- Você sabe o que eles oferecem no cardápio?
- Sim, eles têm muita variedade, além de qualidade, é claro! Nem preciso dizer que o estabelecimento é vegano. – sorri levemente.
- Ótimo. – disse e voltou para a sala de leitura.
Depois de tanto tempo, esperar mais dez minutos na esperança de que a Dama Obscura se percebesse em relação ao horário de fechamento estabelecido pela biblioteca não me faria muita diferença, até porque chegar em casa não estava no ponto mais importante de minha lista de afazeres. Esperei, esperei e esperei, até que decidi ir ao seu encontro - com aquele jeito avoado talvez ela nem soubesse que horas fechávamos.
Quando cheguei, Srta. W me olhou e fechou o livro.
- Sim? – dissera.
- Já ultrapassamos o horário de fechamento, Srta. - olhei com certo medo de parecer rude.
- Mas minha nossa! Desculpe-me. - ela disse fechando o livro e levantando-se rapidamente numa uma elegância inquestionável (como consegue?)
A mesma me aguardou enquanto eu desligava as luzes e checava tudo. Ao trancar as portas também se manteve ali, acredito que não queria ser indelicada de ir embora e deixar-me só, já que havia ultrapassado o horário.
- Peço verdadeiras desculpas pelo ocorrido, Sr. Olivier. – ruborizou.
- Você precisa de um táxi? Não se preocupe, foram só alguns minutos.
- Não, na verdade gostaria de saber: aquela cafeteria que me dissera ainda está em funcionamento este horário? – perguntou-me.
- Sim.
- Acompanhar-me-ia? – disse, mas não me pareceu insegura em receber um não.
Surpreendi-me, e por alguns instantes revirei a mente que, em dualidades, confundia-se inteira. A questão maior acabou por ser: Por que não?
Esforcei-me muito para não demonstrar o quanto fui consumido por um sentimento de inquietude com a ideia de ir a um café com Srta. W, e até mesmo o quanto aquilo me parecia tão distante quanto o sol em sua pele. Eu estava quebrando barreiras e tentando ser mais como ela foi: imprevisível. Caminhando até o café, a mesma demonstrou-se um mistério, a diferença é que eu não precisei tentar cobrir silêncios desconfortáveis. Ela me disse não imaginar uma mente tão pitoresca quanto a de Nabokov ao escrever "Despair", e que realmente precisava de uma pausa para respirar depois de tantas palavras. Eu absorvi aquele momento e entendi uma coisa: Dara, permiti-me chamá-la em pensamento, era um quebra-cabeça daqueles.
Na cafeteria, escolhemos uma mesa e recebemos os cardápios, eu só precisei olhar para a garçonete para que ela assentisse - "o de sempre" - e Srta W continuou lendo o cardápio.
- Você já experimentou esta salada com maionese de abacate? - perguntou.
- Sim, gosto bastante. O pepino japonês traz frescor, os tomates cereja causam a explosão e então a maionese traz homogeneidade na boca e todos os sabores conversam entre si. Muito bom. – penso ter me empolgado muito para uma salada.
Dara não fizera questão de me responder ou de falar o que pensava a respeito de minha descrição. Levantou a mão fazendo sinal para a garçonete - Marina o nome dela, inclusive.
- Sim? - disse Marina, a garçonete.
- Eu gostaria de pedir esta salada com maionese de abacate - olhou-me rapidamente com uma expressão indefinida, se era algum tipo de sorriso no "mundo obscuro de Dara W" eu ainda não descobri. - e também um suco natural de laranja, por obséquio.
- Claro. - percebi que Marina não teve muita reação a respeito de Srta W, mas que também não a definiu como um ser humano, se é que me entende.
Após fazer seu pedido, fiz questão de ser o que sempre fui e puxei um assunto qualquer a respeito da lanchonete.
- Eu tenho opiniões a respeito deste lugar. - disse ela, muito ciente de si.
Assenti para que continuasse.
- É aconchegante e muito bem organizado, as mesas são limpas e não existem pessoas de algazarra, o que faz com que eu possivelmente apareça por aqui mais vezes. Gosto do cardápio e também do atendimento, você vem sempre aqui? Percebi que nem precisou falar o que iria querer para que já entendessem o que seria pedido.
- Confesso que costumo vir bastante aqui, além de ser perto de onde trabalho também é perto de minha casa.
- E o que você mais gosta neste lugar?
- Do silêncio. - disse sem pestanejar.
A moça de vestes negras, e olhar impenetrável, assentiu, porém passou alguns segundos em seus próprios pensamentos, até esboçar algum deles em voz alta.
- Concordo mais do que imaginava!, o silêncio deveria ser mais apreciado pelos estabelecimentos. Normalmente as pessoas diriam algo óbvio: "a comida", mas parando para pensar a respeito, um local onde o silêncio é preservado é uma raridade, e a comida ser boa é o mínimo que se espera. Costumo ir a bibliotecas e ficar em minha casa justamente por isso. - pausou rapidamente com alguma expressão indefinível - este lugar é um paraíso na terra! - disse enquanto tinha uma visão panorâmica de todo o espaço da cafeteria.
Eu não sabia se ria, se mantinha a seriedade ou se somente concordava com seu ponto, mas acabei rindo. Sua forma engajada de expor seus pensamentos a respeito de algo fazia com que me sentisse em um livro antigo. Ela transformava qualquer amenidade em uma complexa divagação de um modo tão lúcido! – minha maior vontade era ouvi-la pelo resto da noite falando sobre os detalhes belíssimos da terceira xícara da mesa ao lado do balcão em que um senhor grisalho se apoiava, ou sobre como dispomos de tantos argumentos inválidos e patéticos para questões básicas como a categorização de predileções em nichos mentais. Dara não se importou muito com minhas risadas tímidas, mas percebia uma interrogação em sua face, que logo tomava rumo para os pratos sendo servidos em nossa mesa. Srta W. me pareceu ter gostado de sua escolha, inclusive interpelou se poderia pedir a receita da "Idílica Maionese" - como apelidara. Eu disse que poderia tentar, mas não daria certeza, pois a Dona Filó – proprietária do local - era muito apegada com seus segredos culinários.
- Você já está assustado com meu modo de portar-me? – questionou, porém não arrisco em definir se a mesma sorria ou não.
- Eu deveria? – devolvi.
Ela gargalhou, parou por um instante mirando meus olhos com a boca entreaberta e então as palavras começaram a formar-se em seus lábios naturalmente carmesim.
- Percebo que minha companhia não apetece certas estirpes humanas, sou totalmente a favor de tal pensamento, pois isso demonstra que não tenho uma personalidade ocultada em um escrínio vetusto qualquer. As pessoas se assustam com meu jeito, principalmente porque nem chegam à denotação de que falo até demais para alguém usualmente tão taciturna. O que eles não entendem é que sou criteriosa. – pausou um segundo para tomar um gole de seu suco - Por que estou lhe falando isso, não é mesmo? Bom, estou a compartilhar com vossa mercê este fato por um simples motivo: esclarecer que já percebi que sua mente está equiparada à minha, do contrário sei que jamais estaria aqui. – nesse momento eu tenho certeza que ela sorriu. Seus olhos também, e eu sentia que ela estava entrando em minha vida para permanecer.
- Critérios são muito importantes para qualquer contexto vital. Concordo com você, porém não esqueça que eu somente aceitei lhe fazer companhia porque não queria que se sentisse mal por ter se perdido no tempo enquanto lia na biblioteca, e que não nos conhecemos de modo efetivo a ponto de poder definir um nível de compatibilidade específico.
- Exatamente! Você consegue perceber o quanto isso é aleatório? – falou com empolgação.
- Sim! Um dos momentos mais aleatórios que já vivi ao longo destes anos – confessei, e Srta. W olhou-me de um modo tão sério e profundo que me fez sentir aquele “friozinho básico” na espinha dorsal. – Não gosto de superficialidade. Nas interações humanas isso vem sendo quase inerente, o que só demonstra o quanto pessoas temem se aprofundar, porque se ousarem fazê-lo, terão de encontrar a si mesmas primeiramente, e isso parece pavoroso.
- Aí desenvolvem relações superficiais para aplacar vazios profundos, método que, diga-se de passagem, tem um prólogo de fracasso, e já sabemos que o epílogo não é muito diferente. O espírito é a essência do ser, se o que é essencial está adoecido, o raso jamais será suficiente. Qual o sentido de existir em um mundo onde os finais de semana são o ápice da vida? Parece que realmente somos animais políticos muito bem adestrados. – completou com um sorriso torto muito apropriado (para o planeta dela, conclui, pois deste mundo a mesma jamais poderia ser). Dara discorreu durante um bom tempo a respeito de um padrão moral e ético totalmente novo e cheio de peculiaridades. Encantou-me com cada gesto e palavra, enquanto eu perdia totalmente as minhas naqueles olhos amendoados. Ela falava tão bonito que parecia um novo tipo de arte, ao menos para mim. Jamais conheci alguém com uma oratória tão idílica.
- Você acha que algum dia não sentirá mais prazer algum em viver, a ponto de cogitar autoquíria? - perguntou-me dando mais uma garfada em seu prato.
- Não sei se tenho uma resposta certa. Gosto muito de analisar o mundo e, nesses momentos, perco-me em divagações que quase nunca se finalizam de modo efetivo. Sempre vão e voltam ao longo de minha vida, claro que percebo e levo em consideração os contextos sociais e todos os motivos que fazem alguém ser como é, porém não posso negar minha decepção em relação a certos comportamentos considerados passíveis de aceitação e consuetudinários pela hegemonia social. Certamente que deve-se levar em conta o curto espaço de decisão, dado o pouco freio ético e moral dos seres pensantes. - devolvi pensativo.
Dara assentiu e continuou a apreciar sua comida enquanto eu beliscava algumas das batatas rústicas que sobraram em meu prato. Em seguida prontificou-se a falar de modo engajado.
- Sim! Veja: são nos dados 500 milissegundos para definir nossas escolhas, sendo que 400 desses são destinados à visualização e seleção, quase automática, daquilo que já nos é costumeiro. Sobrando, assim, somente 100 milissegundos para analisar novos formatos de conduta e agir de acordo. É pouco, e é nisso que muitos se afundam dentre os botões das próprias inquietudes.
-Seria essa então a desculpa perfeita para remanescer em ciclos viciosos de atos indecorosos e de total ímpeto? – indaguei.
- Mas decerto que não! A percepção desses fatores torna o ser totalmente responsável pelo caminho que outorga para si, pois sabendo disso, tem o dever de frear-se a fim de pôr os pensamentos em linhas mais lógicas e frente a uma moral e ética de níveis mais elevados, porém quem não consegue perceber-se no momento e frear tais condutas, certamente deverá sentir-se, no mínimo, culpado por não tê-lo feito.
- O animal que reside no ser humano deve ser levado em consideração, porém jamais visto como uma muleta, a fim de fortalecer as próprias malfeitorias. Entendi. Concordo com seu raciocínio.
- O que você pensa sobre os métodos educacionais? Eu acho que as pessoas perdem o interesse justamente por não terem total poder de escolha a respeito do que irão fazer de suas vidas, e que Ivan Illich estava certo em muitos quesitos. Desculpe-me, pergunto por ser curiosa e, também, porque a maior parte dos que conheço sempre sofrem de desgosto a respeito da vida escolar e acadêmica.
- Suas conclusões são verdadeiras, conheço muitos que simplesmente passaram a viver no automático de tudo. Não tenho muita familiaridade com este autor, porém sei que ele defende a ideia de uma educação sem escolas. De certo modo, penso que locais específicos para aprendizagem são tão relevantes quanto os estudos através da naturalidade e amadurecimento. Não acho que as coisas devam ser optativas em detrimento umas das outras, porém sou totalmente contra formatos estabelecidos e regulados pelo governo. - falei.
Dara tomou seu suco e não me respondeu nada. Se isso parecia bom ou ruim? Já desisti de tentar definir sua maneira de se comunicar. Levantamo-nos e fomos até o caixa, tentei pagar sua conta, mas, pelo que percebi, soou mais como uma ofensa do que como um ato de cavalheirismo. Apesar de ela me lembrar uma nobre senhorita das épocas vitorianas, não me remetia em nada a este fator cultural da época. Saindo da lanchonete perguntei se morava pelas redondezas - ela assentiu.
- Se me permitir, compartilharei algo totalmente sem nexo, porém muito relevante para mim. Posso prosseguir? – olhou esperando por meu assentimento, que foi feito através de um meneio de cabeça.
- O sol nunca me pareceu muito convidativo. Na verdade, a dinâmica das coisas é sempre tão cheia de complexidades desnecessárias que, muitas vezes, me planejo com antecedência para coisas banais somente pelo prazer de fazer aquilo que ninguém faria. Já existem tantas questões não levadas em conta somente por serem tidas como irrelevantes que eu, particularmente, prefiro ser do contra e pensar que todas devem ter seus quinze minutos de valor. O prazer advém da valorização de tudo aquilo que se considera insignificante visto a nível macro. Para que eu escreva, é necessária a junção de letras que, sozinhas, não passariam de códigos de comunicação traduzidos através de imagens, mas, em nível total, suas potencialidades em formar palavras e textos é que viabilizam um aprimoramento na comunicação humana. Já disse que fenícios são demais? – mirando-me, a mesma parecia fascinada, porém de um modo tão ingênuo que beirava o pueril.
Não pude deixar de sorrir no momento em que a mesma finalizara suas constatações. Ela simplesmente trocava os assuntos sem avisar e nem temia o que lhe diria, se pareceria uma tresloucada. Seu jeito me inquietava justamente por eu nunca saber o que sairia de seus lábios a seguir, ao mesmo tempo que seu olhar guardava um universo totalmente particular. Seus pensamentos me pareciam profundos demais para caber em um nicho cerebral do corpo. Aquela mente só poderia sê-la, o que é muito mais do que um conjunto de ossos, órgãos e tecidos adiposos. É intrínseco ao espírito. Senhorita W. olhava-me confusa enquanto caminhava (tão distraída), e eu nem tinha palavras para dizer o quanto aquela noite estava me saindo melhor do que qualquer encomenda. Ela é um mistério destemido, porque não hesita em desvelar a respeito de sua mente. Quanto mais esclarece a respeito de si, mais obscura e quimérica demonstra ser. Tão convicta de seus ideais cheios de porquês extremamente válidos que até parece saber ler o futuro, mesmo tendo um comportamento e pudor muito similares aos de eras vetustas, tudo numa medida não somente aceitável, como requerida e encantadora. Eu jamais pensei que pudesse existir, fora dos paraísos mentais que desenvolvi ao longo dos anos, uma mulher assim. Entre objetividade e subjetividade, simplesmente não sei o que escolheria (estou claramente perdido), mas se tentassem me fazer optar entre ela e o mundo, eu certamente diria que os mesmos estavam a cometer um grande pleonasmo.
- Olivier, gostaria de pedir-lhe desculpas novamente pelo ocorrido e, também, dizer que apreciei muito sua companhia. Não ser estulto como a maior parte dos seres é algo que conta muito. Com base nisto, acredito que ainda compartilharemos de uma amizade. - discorreu com seu rosto monocórdico de quase sempre, enquanto eu sorri levemente.
CONSTATAÇÕES FINAIS
Despedimo-nos e, como já imaginava, até nisso Srta W era categórica. Devo afirmar que seus modos foram de extrema complacência do início ao fim do tempo que passamos juntos. Nunca imergi tanto em uma conversa quanto o fiz neste dia. Ela realmente era um ser pensante e não somente mais um corpo vagando pelos escombros da existência.
Ao chegar em casa, preparo meu café forte, tiro os sapatos e me atiro no sofá. Penso, penso e penso, mas nada me vem à mente de forma clara. Nada faz muito sentido, estou cansado e com muito sono. O café ficou ali, fotografado em meus olhos, que logo se fecharam. Um dia cheio de adventos causa essa sensação e,analisando tudo o que aconteceu, concluo que há muito não vivia algo confuso, mas muito agradável. Nestas horas percebo o quanto minha vida é pacata e ao mesmo tempo, cheia de “horas preenchidas” com um tipo de solidão poética. Opcional, eu sei, mas dentro desse universo solitário existe um labirinto enorme que, por mais incrível que pareça, não tento encontrar a saída, mas sim o beco mais confortável para esgueirar-me. As poucas conclusões peculiares de Dara me fizeram querer vagar novamente pelo que costumam chamar de “mundo real”, mesmo que eu saiba que ela provavelmente não estará dentro deste panorama. Nem sempre conseguimos encontrar motivos para levantar da cama e dizer bom dia ao mundo, mas confesso que sempre encontro os meus no Sonho. Ao som de Pictures of You (The Cure) costumo sentir-me vivo – enquanto canto um breve trecho, até parece que o céu se torna mais belo do que sempre considerei.
Não existe nada mais esquisito do que acordar no meio da madrugada com uma vontade absurda de revirar papéis - as palavras são grãos valiosos e sabem definir muito bem até aquilo que nem chega a sair de nossos lábios. Bom, decido me render à insônia e procurar algo para comer enquanto assisto algo. Ao descer as escadas, ouço Epicuro miar baixinho - ele sempre quer comida, não importa se comeu há dois segundos ou há duas horas. Nessa toada, já sei que se eu quiser paz para fazer meu lanche terei de dar algum petisco para o guloso que, - opa, calma Epic!! - iria dizer que ele está em minha frente, mas acho que não seria tão fiel aos fatos: ele está me atacando como um leão selvagem e faminto. Preciso pegar a ração rápido e jogar em seu potinho para me desvencilhar desta fera comilona. Após a aventura felina e uma boa lufada de ar, penso no que posso fazer que não envolva fogo de modo algum, abro a geladeira e vejo que só tenho uma pasta de grão-de-bico , tomates, folhas de alface e uma coisa que não vou me arriscar a comer, mas sim jogar fora. Preciso fazer compras urgentemente. Pico um tomate e algumas folhas de alface, tempero com Oliva e pimenta do reino. As fatias de pão são untadas com a pasta -deliciosa, inclusive - de grão-de-bico. Está feito, e “Epi” está me olhando com cobiça, mesmo depois de ter comido tudo o que tinha em seu pote. Sigo para a sala e começo a pesquisar algo para assistir. Opto por um filme. Enquanto como e assisto, só imagino que eu talvez tenha alguns sentimentos que me fariam cometer erros parecidos com o do protagonista. A vontade de reviver alguns momentos talvez me custasse muito caro caso eu tivesse a oportunidade de ir em busca dos mesmos. - minha nossa, este sanduíche está uma delícia. Deixo o prato no braço do sofá para não precisar pausar o longa, realmente estou com expectativas a respeito deste desfecho, pois normalmente assisto até o momento de acabar a comida e então desligo para voltar a dormir. Maat sobe no sofá e se deita ao meu lado, ela adora a “tela mágica” e a forma que me concentro na mesma quando a ligo, ao subir em meu colo, começa a querer brincar com minha camisa velha e amarrotada, se eu me importo? Nem percebo, estou muito ocupado em entender a trama, parece que a qualquer segundo o jogo pode virar. Ao final do filme concluo: não adianta tentarmos fugir da realidade, só acabamos nos perdendo numa neblina terrível.
Ao chegar em casa, preparo meu café forte, tiro os sapatos e me atiro no sofá. Penso, penso e penso, mas nada me vem à mente de forma clara. Nada faz muito sentido, estou cansado e com muito sono. O café ficou ali, fotografado em meus olhos, que logo se fecharam. Um dia cheio de adventos causa essa sensação e,analisando tudo o que aconteceu, concluo que há muito não vivia algo confuso, mas muito agradável. Nestas horas percebo o quanto minha vida é pacata e ao mesmo tempo, cheia de “horas preenchidas” com um tipo de solidão poética. Opcional, eu sei, mas dentro desse universo solitário existe um labirinto enorme que, por mais incrível que pareça, não tento encontrar a saída, mas sim o beco mais confortável para esgueirar-me. As poucas conclusões peculiares de Dara me fizeram querer vagar novamente pelo que costumam chamar de “mundo real”, mesmo que eu saiba que ela provavelmente não estará dentro deste panorama. Nem sempre conseguimos encontrar motivos para levantar da cama e dizer bom dia ao mundo, mas confesso que sempre encontro os meus no Sonho. Ao som de Pictures of You (The Cure) costumo sentir-me vivo – enquanto canto um breve trecho, até parece que o céu se torna mais belo do que sempre considerei.
Não existe nada mais esquisito do que acordar no meio da madrugada com uma vontade absurda de revirar papéis - as palavras são grãos valiosos e sabem definir muito bem até aquilo que nem chega a sair de nossos lábios. Bom, decido me render à insônia e procurar algo para comer enquanto assisto algo. Ao descer as escadas, ouço Epicuro miar baixinho - ele sempre quer comida, não importa se comeu há dois segundos ou há duas horas. Nessa toada, já sei que se eu quiser paz para fazer meu lanche terei de dar algum petisco para o guloso que, - opa, calma Epic!! - iria dizer que ele está em minha frente, mas acho que não seria tão fiel aos fatos: ele está me atacando como um leão selvagem e faminto. Preciso pegar a ração rápido e jogar em seu potinho para me desvencilhar desta fera comilona. Após a aventura felina e uma boa lufada de ar, penso no que posso fazer que não envolva fogo de modo algum, abro a geladeira e vejo que só tenho uma pasta de grão-de-bico , tomates, folhas de alface e uma coisa que não vou me arriscar a comer, mas sim jogar fora. Preciso fazer compras urgentemente. Pico um tomate e algumas folhas de alface, tempero com Oliva e pimenta do reino. As fatias de pão são untadas com a pasta -deliciosa, inclusive - de grão-de-bico. Está feito, e “Epi” está me olhando com cobiça, mesmo depois de ter comido tudo o que tinha em seu pote. Sigo para a sala e começo a pesquisar algo para assistir. Opto por um filme. Enquanto como e assisto, só imagino que eu talvez tenha alguns sentimentos que me fariam cometer erros parecidos com o do protagonista. A vontade de reviver alguns momentos talvez me custasse muito caro caso eu tivesse a oportunidade de ir em busca dos mesmos. - minha nossa, este sanduíche está uma delícia. Deixo o prato no braço do sofá para não precisar pausar o longa, realmente estou com expectativas a respeito deste desfecho, pois normalmente assisto até o momento de acabar a comida e então desligo para voltar a dormir. Maat sobe no sofá e se deita ao meu lado, ela adora a “tela mágica” e a forma que me concentro na mesma quando a ligo, ao subir em meu colo, começa a querer brincar com minha camisa velha e amarrotada, se eu me importo? Nem percebo, estou muito ocupado em entender a trama, parece que a qualquer segundo o jogo pode virar. Ao final do filme concluo: não adianta tentarmos fugir da realidade, só acabamos nos perdendo numa neblina terrível.
Ao apagar as luzes e subir as escadas em direção ao meu quarto me pergunto se já não estou perdido há muito mais do que possa perceber.
(Victória Elsner)

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