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VANITAS


O sol é para todos? Ainda há um fardo de singularidade envolvido à imagem geral de indivíduos “alternativos”, afinal, conseguiriam os mesmos receber justiça apesar da evidente exclusão social? É típico os mesmos encontrarem o preconceito dentre os botões da falta de empatia e cumprimentarem-no como se não fosse nada além de um silêncio absoluto entre o que se quer e o que ocorre. Justamente por este motivo que, numa dessas jornadas,se escreve por cima de algumas cicatrizes velhas que a alma insiste em acolher que, mesmo que isso não se seja o suficiente para o que se chama de justo, o que menos se quer é arriscar a própria pele. Lutar contra um mundo onde quanto mais você vale, menos você é, onde quanto mais você exalar a sua real essência, menos confetes serão jogados, não pela falta de merecimento, mas pelos costumes excludentes tão comuns, é sinônimo de insanidade. Num mundo onde o sol é para todos, mas somente por não haver outra maneira, o futuro passa a ser somente para aqueles que se calam, e oprimem suas verdades por conta de um sistema corrompido e racista. O futuro é dádiva do homem branco, assim como o porvir de sucesso está na pele sem máculas, nos pensamentos extremamente reacionários e na falta de alternatividade de pensamento. Todos merecem defesa? Quem se atreveria a defender negros? Somente seres impuros, é o que está na boca do povo; um julgamento justo dádiva para poucos, ou melhor, para os que não estão listados como intrinsecamente não merecedores de crédito social. Mas, convenhamos: isso é, somente, mais uma das inúmeras formas de mascarar o preconceito tão enraizado na cultura humana. Os males mais enraizados, normalmente, pairam no inconsciente. Simplesmente são, não questionamos nada, porém se os mesmos forem postos à prova por outrem, surge a cegueira. Perdemos a noção do valor real de nossos semelhantes e do quanto os mesmos são necessários por seus próprios motivos, que podem, inclusive, não envolver facilitações para o alcance de nossos próprios intentos. A necessidade do ego se sobrepõe ao conjunto de verdades e todos os "borrões" fazem-se conspícuos. É como se necessitássemos de indelével relevância em amplo aspecto, cada hora e segundo, sendo que, em realidade totalmente antagônica, vagamos por esta terra em busca de qualquer sinal de fumaça que pareça fazer mais sentido que nossas próprias vidas. Contraditórios? Pois, concomitantemente, muito próximos da insanidade. Não há grão de areia suficiente que preencha os inúmeros preconceitos existentes no mundo. Somos ocos, pois o preconceito é um vão mental. A humanidade caminha na proa de seus próprios desatinos e grita pelo socorro de quem agride, sem cogitar a possibilidade de não merecimento. E mesmo que houvesse, como a vítima pode auxiliar seu algoz a sair deste redemoinho de delitos, sendo que a mesma está sofrendo a fase de execução? Não há lógica, é como imaginar um assassino pedindo ao que será assassinado para que o ajude, porém exatamente em quê? Digamos que ele peça auxílio para não cometer tal atrocidade, porém quando a vítima acata seu pedido, o mesmo sente mais prazer em cometer seus delitos, pois sua consciência passa a sentir-se compensada, como se dissesse: "está tudo bem, você tentou ir contra suas condutas maleficentes, agora não haverá problema se você machucá-la um pouco, afinal, você está sofrendo por fazer isso, e é o que verdadeiramente importa: o seu falso sofrimento enquanto age em prol destes desígnios indignos, pois significa que você é mais vítima do que sua presa, que por estar na lista de seres sem merecimento de crédito social, está ali justamente para pagar por seus delitos; a pagar por seus pecados em seu lugar.". Se fugirmos da pauta de boas aparências, logo, não temos valor, nem significados válidos para sermos respeitados e julgados pelo que verdadeiramente fazemos. Andamos ao derredor de delitos alheios, justificando-os através das vestes sangrentas de outrem, que, nos vestem com seu sangue dizendo que os cometemos por estarmos vestidos de tal modo, sendo que nós fomos quem os salvamos. Fala-se sobre tantas atrocidades, diariamente, e nenhuma delas é vista com horror. O caos instaurado em nossos pensamentos é muito leve se comparado ao que geramos a nível de tempo e espaço, porém ainda temos a capacidade de exercer autocomiseração. Ridículos somos, e cada milésimo torna essa esquizofrenia mais evidente. Todos esses horrores começam com a vaidade residente em não admitir os vácuos intrinsecamente fúteis e, integralmente, constituintes da alma humana em estado de praga biológica.
(Victória Elsner)

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