Insólitos são os retalhos de mim espalhados por memórias que já não deveriam mais ser tão significativas. Que inferno mental é este do qual enclausurei-me? Recapitulo tantas opacidades, mas nenhuma me parece tão desajuizada quanto esta. Estou apartando-me de algo irreal, é como ausentar-se de uma casa que nunca nem mesmo existira para que pudesse adentrar - ilógico, não? Em eras noviças, muitas promessas fiz a mim mesma, e uma delas era a de jamais ir em busca dos milhares de vultos vitais em prol de adereços que somente a alma poderia agraciar-me.Em momento algum deflagrei-me tanto por tão pouco e, quanto mais reflito, só chego na conclusão hiperbólica de que nada vale a paz interior de um ser. Jamais quis tanto aferrolhar os olhos e apagar a existência de alguém ad aeternum.
Quiçá um tempo seja necessário para que tudo perfeiçoe-se, porém, enquanto isso, estes momentos osculam-me o corpo enquanto ladrilham meu cérebro, construindo sinapses indesejadas;
os dias passam e corrompem - mesmo sem querer - todas as pontes já construídas, o obtuso é este sonho tão lânguido e estuado. Barroco, que ecoa a mente e faz-se cada vez mais intenso. As flores - que murcham em meu outono fora de estação - sabem muito bem sobre a consternação deste epílogo, e assustadas rogam em taciturnidade pelo fim deste súbito padecimento. É incrível o quanto parece-me impossível olhar nestes olhos e dizer adeus. Nem mesmo ao fechar-me no planeta mental que desenvolvi somente para esta finalidade obtive sucesso. Enquanto falho miseravelmente faço-me recôndita pelas entrelinhas destas desculpas maltrapilhas, somente por sentir necessidade daqueles braços ao derredor de minha delicada silhueta. Manter-me-ei aqui, em alguma estrela perdida pela constelação das plêiades. Nesta aquarela de tulipas esverdeadas.
No fim das contas, sou somente um emaranhado de teorias
sobre almas perdidas em tempos avessamente paralelos.
Não há lugar consentâneo para alguém como eu.
(Victória Elsner)
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