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O MAR EM MIM


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A delicadeza com a qual minhas mãos se sobrepõe à mesa. O tom negro que borda minhas unhas e meus lábios, todo o viço de minha derme. Me acostumei com a incerteza, mas com o pouco jamais. Ao olhar meu reflexo no espelho, só penso o quanto quero percorrer meus caminhos mais íntimos e perder-me totalmente por meus próprios corredores. Sou um labirinto. Me entrego sem medo ao meu próprio gosto de liberdade, e isso já percebi ser a única capaz de proporcionar-me na medida perfeita. O mundo cabe em mim, e jamais estive tão em casa. Não existe longe, nem perto, nem portas no deserto que me impeçam de viver toda a surrealidade que há em ser quem sou. Simples.
 A forma com a qual minhas roupas escuras ornam com a cor de meus olhos, com o tom monocórdico de minha face e meu sorriso que se assemelha ao tédio e às adições de dúvida e ponderamento se deveria estar fazendo o que estou prestes a fazer. Confesso: Aos sóbrios não faço questionar, e só apareço na certeza total de ser necessária - senão só chegarei no último vagão, caso orne com o desejo em sair de minha solitude; sempre esclareço: não caibo dentro de ninguém além de mim mesma. Se amanhecer, estarei comigo. Em meus próprios braços. Diariamente a me levar por todos os lugares, pegar carona com o vento e viver toda a aventura existente nas estradas deste coração que alguns apelidam de Universo.
 Na morte velejarei - pelas ondas do mar, mesmo que seja através de minhas cinzas jogadas nesta água salgada tão misteriosa quanto meu próprio interior. Talvez seja por este motivo que, em vida, não me apeteçam tanto estas gotas turbulentas. Reservei-as para um momento póstumo, onde diluirei e fundirei totalmente. Eu e o mar, homogenizados por inteiro - como um beijo molhado e cheio de malícia. Prepararemos uma avenida subaquática, nos esconderemos para amarmo-nos até o fim, sem perceber que este mesmo fora o causador de nossa união. Somente por isso o sol reflete na água dessa cama salgada - nas ondas cheias de sincronia que me carregam, ou me são?
 Nem senti quando tudo, supostamente, "acabou" - na verdade sinto uma expansão imensurável, por isso decidi ficar só.  Mas parece, mesmo assim, que o mundo nunca sai de mim.
 Eu - que nunca amei - ouvi dizer tantas coisas, me questionei tantas vezes sobre meus próprios comportamentos. Alguns me apelidaram de raridade, outros de tétrica. Obtusa e mortiça. O não sabido era: eu só queria deixar ser, e, por fim, as cinzas emaranhadas neste mar - que também me é -relembram a obscuridade de lábios densos sendo equilibrados pelo contraste às minhas pretéritas conjecturas pueris, e, sendo franca, um tanto quanto ousadas - nunca me importei em ser uma contradição - passeando pelas ruas de quem se permitia ouvir meus sussurros. Lembranças sempre me são traduzidas à meia luz, bordando uma moldura para o quadro barroco que habita nas paredes de minh'alma - uma inundação entre a modéstia e o estrambótico.
A verdade é que estive sempre gritando dentro de mim.
E ainda estou.
                                                                                                          -Victória Elsner



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