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O BEIJO


Há, desde muito, um postulado repleto em advertências inúteis sobre a criação dos céus e da terra, sobre o medo de cometer despautérios e todos os outros termos que aprisionam os parvos. E, sobretudo, manchas de sangue que cobrem milhares de corpos estirados no chão vetusto, mortiço, pútrido e abundante em odores fétidos no qual piso.
De todos os cadáveres que, ali estilhaçados, se abraçam em suas próprias interjeições, o que mais chama-me é o teu, por conta dos lábios cinzentos vertidos no sangue que, pintando teu corpo, me parecem uma tela sombria e venusta.
Finjo rabiscar o rubro carmesim em teus lábios, delineando teus olhos estáticos,penso em como parecem-me indubitavelmente belos. 
Em meio ao caos, cogito que talvez fosses meu em breves contextos brandos. Quiçá fosses o dono de meus pensamentos menos adventícios, e em teus braços pudesse eu velejar. Ah, se em teus lábios mortiços pudesse eu alumbrar-me, passeando por teu rosto, por teu corpo em toda essa imensidão... Uma idílica constelação.
Toco teu traje, que desenha o corpo sangrento.
Esta poça escarlate, que abraça-te e inunda estas lajotas quadriculadas em porcelana nívea, é tão suntuosa quanto a curva que acoplas diante deste cenário. Posso sentir teus beijos intensos, osculo-te  morto e, ao fechar meus olhos, ver em teus braços uma bela camponesa pela qual encantou-te um dia.
Sofro em silêncio.
(amo-te)
Sinto as dores da tua alma
(lágrimas caminham pelo percurso tétrico de minha face)
Insensata camponesa. Roubou-te o que mais valia em teu ser.
(Tu, como um todo)
Enquanto sorria nos braços de outro homem.
(Hetaira de Gávea)
Alumbrou-te em prol de seus asquerosos desígnios.
(Enquanto vejo-te esvanecido, apaixono-me por cada detalhe pitoresco da tua ausência)
 Dentre todos os corpos que se encontram neste corrimão, digo-te: Putrefatos são estes outros, mas o teu... O teu, ó caro e bom homem, faz-me sentir o trescalo dos mais dignos sentimentos. Afinal, um pequeno abismo é uma grande chance de deleitar-se na obscuridade das próprias nequícias. A oportunidade de esvanecer ao som de uma melodia soturna qualquer, esgueirando-se em breves ensejos e conjecturas sobre a vida de um homem bom que construiu sua casa e viveu ao redor de uma paisagem bucólica.
Deito-me ao teu lado, salpicando algumas últimas gotas vermelhas por minha pele alabastrina, e então estou certa de que o rio que corria em tuas veias, agora colore minha derme do mesmo modo com o qual teus lábios passeiam pelos meus, criando uma pequena e lúgubre sutura entre os polos “Vida” e “Morte”.
(Meu coração se instala nas entrelinhas das parcas pestanas de meus olhos cor amêndoa)
Algo cristalino e levemente salgado brinda meus lábios
(É o mar que há em mim)
Gélidos e cinzentos são os teus lábios
(Só quero amar-te)
Em teu sangue embebedo-me
(Assim, como uma onda brejeira, inundas minh’alma)
Com este beijo mortiço 
(e conspurcado ao ver de muitos) 
No qual esbaldo meus lábios, vejo-me apaixonada
(Uma pena estares morto)

-Victória Elsner

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