
Existem nuances muitos sutis que me fazem pensar em você com
um sorriso muito singelo e despreocupado. É como se eu pudesse recortar alguns
pequenos traços, linhas no tempo e no desenrolar dos teus passos em minha
direção. Somos tão jovens que nem nos damos conta do quanto nos sentimos
diferentes quando todo o tempo do mundo já foi gasto com desejos banais e
indelicados. Nós dissemos um ao outro que jamais seria difícil, sendo que, na
verdade, todo o fim do dia demonstra seu peso em nossas faces cansadas. Quando
nos dermos conta estaremos frente a frente, compartilhando a mesma xícara de
café preto, o mesmo silêncio reconfortante de saber que está tudo bem em não
ter nada a dizer, mas querer compartilhar, juntamente, este hiato. Estaremos
frente a frente, com as faces sérias e mentes saturadas de tudo o que o mundo
tem a nos dizer. Nossas mãos - ocupadas demais para se soltarem daquele outro
fim de semana em que o dia se passou em um quarto, com as luzes apagadas e
televisão ligada só pra não ensurdecer. – irão passear em nossos olhos, que se
manterão fechados justamente para não ver motivos para que não nos beijemos
mais um pouco antes de pensar em levantar para passar o café. Ficaremos com os
cabelos desgrenhados e escaparão algumas risadas. A gente se acha tão bonito
quando a luz traduz a visão através da tecnologia mais misteriosa que existe:
os olhos humanos e sua capacidade de ver sem precisar enaltecer, nem dizer. Só
fluir. Na verdade, parece que ontem à noite eu pensei demais em como eu gosto
de rir de qualquer coisa que seja dita pelo tom da sua voz. Parece que, por
acaso ou ironia, eu achei que a sua forma de encarar a vida poderia ser um
motivo pelo qual eu pudesse lutar para me manter por aqui, neste pedaço do
universo que decora minhas roupas escuras com os seus beijos - insistentes em passear por
meu corpo até na sua ausência. Eu também comecei a perceber que só de pensar em
estarmos juntos me faz querer deitar na sua cama e tirar as suas roupas de um
jeito bem descontraído, trocando sorrisos bobos e, até mesmo, ingênuos. Me faz
querer te beijar devagarinho, e ficar só sentindo o gosto de te ter. O sabor do
nosso ser que escorre em cada ínfima partícula que constitui nosso campo de
átomos. Nossos corpos cheios de atos. Nossas faces inteiramente imersas no profundo
desejo de se fundir uma na outra, assim como cada célula de nossos corpos à
meia luz dessas estrelas vibrando dentro da gente. De repente já é de manhã
novamente e eu não quero me despedir. Na verdade, eu quero só me despir.
Em todos os sentidos.
Com você.
- Victória Elsner
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